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Editoriais
Sábado, 28 de Fevereiro de 2009, 13h:08

Cortando na carne

Enquanto os indicadores econômicos mais recentes começam a levantar o temor de uma depressão (retração da atividade, desemprego crescente, baixo nível de produção e queda dos investimentos) na Europa, por aqui, outro cenário, por assim dizer, sombrio já começa a provocar sustos, num misto de preocupação. No caso específico de Mato Grosso, um dos sinais mais nítidos dessa triste realidade é a crise que ronda, perigosamente, o setor pecuário do Estado e aponta para um enfraquecimento gradativo da atividade, com reflexos diretos na economia regional e nacional. Com efeito, causou furor a notícia de que o Frigorífico Independência S.A. decidiu suspender, temporariamente, o abate de bovinos em cinco unidades em Mato Grosso. A desativação dessas plantas, quando nada, significa deixar de abater quatro mil bois/dia – por conseqüência, a economia estadual deixa de movimentar a significativa quantia de R$ 5 milhões/dia. Das 19 unidades que o grupo possui no Brasil, apenas onze abatem bovinos e, desse volume, 55% estão no Estado. A medida provoca surpresa, inicialmente, pelo fato de o frigorífico ser um dos maiores grupos exportadores de carne bovina do país e de ter marcado o exercício fiscal de 2008 com operações de expansão. Sempre foi visto como uma empresa de gestão, com padrões bem definidos de atuação, o que, inclusive, proporcionou alternativas à pecuária estadual. A empresa, por sinal, está presente em seis outros estados, com capacidade de abate de 12 mil cabeças de gado por dia. Em princípio, os motivos para tão drástica medida seriam problemas no fluxo interno do caixa da empresa, fator que teria impedido o pagamento a fornecedores. Extra-oficialmente, a paralisação das atividades teria sido provocada por atraso na liberação de parcela de venda de parte do controle acionário da empresa ao BNDES. Sem aporte, o rombo no caixa teria se tornado inevitável. Especulações à parte, a verdade é que notícia da suspensão do abate de bovinos em Mato Grosso, em volumes tão consideráveis, é um sinal claro de que a crise global adquire proporções graves no setor pecuário do Estado. Uma vez que as operações das unidades desse segmento são feitas com a captação de dinheiro no mercado externo para ser aplicado em capital de giro, com o aprofundamento da crise, as empresas ficaram sem crédito. A propósito, em reportagem especial, no domingo (22), este Diário retratou o mau momento vivido pela indústria frigorífica e os graves reflexos da crise mundial, como as demissões, os pedidos de recuperação judicial, as dívidas e as falências. Até aquele dia, Mato Grosso tinha dez plantas desativadas e, agora, já são 15. Está claro que falta liquidez ao setor, que é responsável pela segunda maior pauta de exportações de Mato Grosso, atrás apenas da soja. Ademais, o Estado tem o maior rebanho bovino do país, com 28 milhões de cabeça. Há, sim, motivo de sobra para preocupação, mas também há de se convir que é um problema pontual; quando nada, um problema sistêmico, gerado pela crise mundial e que tornou o crédito escasso. Até prova em contrário, não há sinais de que o fechamento das plantas foi ocasionado por má gestão. A decisão equivale a ter que cortar na própria carne. Além da restrição do crédito externo, o setor pecuário enfrenta problemas sérios como a queda no volume de carne exportada, em função da escalada protecionista do mercado internacional, e da redução do consumo interno devido ao aumento no preço da carne. Infelizmente, o mercado europeu, que tanto cobra as nações em desenvolvimento a mais ampla abertura de suas economias, continuam recorrendo à escalada protecionista, sempre que têm seus interesses contrariados. Como a crise global, o protecionismo só cresceu. Autoridades econômicas do Estado, ao que consta, estão atentas ao problema, que não parece ser de difícil solução. Será preciso uma postura firme diante da crise. Como, por exemplo, interceder junto ao Governo Federal por uma linha de crédito especial, a exemplo do que ocorreu em relação aos agricultores. É preciso blindar Mato Grosso contra os efeitos da crise global. É preciso blindar Mato Grosso contra os efeitos da crise global.

Edição EDIÇÃO 16964




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