Editoriais
Quinta-feira, 08 de Agosto de 2013, 20h:12
A
A
Bienal em Cuiabá
Estranhamente, muito estranhamente, o tema mais palpitante no setor rural da região Centro-Oeste, a expansão das áreas das reservas indígenas, não entrou na pauta da Bienal dos Negócios da Agricultura, aberta ontem em Cuiabá e que prossegue hoje. Produtores rurais lamentam que o citado tema não conste da programação, pois segundo eles, deveria merecer o maior destaque e ser o mote da Bienal, que é promovida pelas federações de Agricultura e Pecuária do Centro-Oeste, região onde o problema é mais agudo, principalmente em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Para que possa trabalhar com tranquilidade o produtor precisa de uma série de garantias, sendo que a segurança jurídica quanto à posse de sua área é fundamental. No entanto, a política indigenista nacional não observa o direito de propriedade constitucionalmente assegurado pelo registro do imóvel. Essa situação intranquiliza o campo e, em breve, poderá inclusive desmotivar a ocupação econômica da zona rural. É importante que a Bienal trate da questão da logística de transporte, como prevê sua programação. Mas, em Mato Grosso, esse tema para ser debatido com profundidade teria que passar obrigatoriamente pelo desvio da rodovia BR-158, que terá um trecho alterado na região da antiga fazenda Suiá-Missú, de modo a não cruzar a reserva Marãiwatsédé, recentemente entregue aos índios xavantes. A Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso (Famato) teria que se debruçar mais sobre a questão da expansão das reservas indígenas. O mesmo procedimento deveria ser adotado pela Famasul, que representa os produtores rurais do vizinho Mato Grosso do Sul. A pompa da Bienal contrasta com a dura realidade do produtor rural no Centro-Oeste e principalmente de Mato Grosso. Sua realização seria plenamente justificada se a mesma se transformasse numa vitrine de exposição dos problemas enfrentados pelos agricultores e pecuaristas que trabalham sobre pressão da Funai, do Ibama com seus aliados ongueiros, dos movimentos sociais de sem terra e penalizados por uma carga tributária que praticamente inviabiliza toda atividade rural. As federações promotoras da Bienal o fazem com recursos que arrecadam dos produtores filiados aos seus sindicatos e das generosas fontes governamentais. Que a atual seja a última realizada sem consulta às bases sindicais, para que essas definam suas pautas. Bienal não pode ser evento promocional de dirigentes ruralistas encastelados em seus cargos, pelos quais lutam em desespero. Bienal deveria ser reunião de quem produz para discutir temas interessantes da cadeia produtiva e buscar caminhos para superar percalços. O produtor que participar da Bienal corre o risco de ao retornar à sua propriedade encontrá-la sob a vistoria de antropólogos da Funai em busca de sustentação para transformá-la numa aldeia indígena. Isso, não por excesso de força da Funai, mas pela fraqueza de lideranças ruralistas que optam pelas benesses de seus cargos, quando deveriam exercê-los em defesa da categoria que representam. A pompa da Bienal contrasta com a dura realidade do produtor rural no Centro-Oeste