ECONOMIA
Sexta-feira, 06 de Junho de 2014, 20h:11
A
A
SOJA
Mais uma vez, vice!
Sem evoluir no quesito produtividade, e o pior,
retrair em alguns anos, grão perde competitividade
MARIANNA PERES
Da Editoria
Pelo segundo ano consecutivo, o Brasil alicerçado pela produção mato-grossense de soja não ultrapassou os Estados Unidos na oferta mundial do grão. A frustração do pós-colheita mais uma vez tomou conta do segmento, afinal, assim como na safra passada, o ciclo 2013/14 tinha tudo para fazer do país o campeão mundial de soja. Entretanto, o título, segue com os norte-americanos, os verdadeiros craques da Copa da Soja, como destaca o ex-presidente da Associação dos Produtores de Soja e Milho do país (Aprosoja Brasil) e atual presidente da Câmara Setorial da Soja, Glauber Silveira. A falta de evolução em produtividade tem sido o maior adversário dos produtores brasileiros. E é justamente o rendimento por hectare que têm decepcionado, afinal, quanto mais quilos em uma mesma área, maior se torna o lucro, pois as despesas se diluem no volume colhido. Se o Brasil é reconhecido mundialmente no futebol, já conseguiu cinco títulos mundiais e com certeza irá caminhar para levar a taça da Copa do Mundo 2014, no quesito produção de soja o cenário anda bem diferente. No pódio de produtividade continuamos perdendo para os Estados Unidos e pelo que tudo indica nesta próxima safra já temos o nosso segundo lugar reservado novamente. Como explica, no Brasil o potencial de crescimento e produção de soja é alto, mas a realidade local tem impedido que o país se torne o campeão mundial da produção de soja. Temos tido problemas com produtividade. Nas últimas safras em vez de aumentarmos nossa média nacional, perdemos rendimento por hectare. Em 2010/11, por exemplo, conseguimos produzir 3.115 kg/ha e nas safras seguintes a média nacional, sempre, foi abaixo de 3.000 kg/ha. Esse cenário é preocupante, enquanto deveríamos estar com uma média nacional acima de 3.400 kg/ha. Aí eu pergunto: o que tem nos impedido de crescer?. ESTAGNADA - Como completa Silveira, que também é produtor, a pesquisa brasileira tem sofrido muito com a falta de recursos e por isso não conseguimos avanços em problemas que têm roubado nossa produtividade, como pragas e doenças. A ferrugem da soja, nematoides e pragas como a lagarta Helicoverpa já tiraram bilhões de reais em produtividade dos produtores. Geralmente, o que vemos são muitas pessoas (seja produtor ou especialistas) colocarem a culpa no clima, mas o real vilão é a falta de política pública. A ausência de recurso direto na pesquisa voltada à produção agrícola traz perdas para nós produtores e também para a economia do país, que deixa de crescer. Outro ponto que tem impedido o avanço da sojicultora nacional, como enfatiza Silveira, é a falta da liberação de produtos de defesa sanitária mais eficientes. Faltam aos remédios disponibilizados no mercado moléculas mais tecnológicas e isso gera um maior número de aplicações, situação que está ampliando ano-a-ano o custo de produção, tirando boa parte da renda do produtor. O pior disso tudo é que além de não termos novos produtos de defesa, ainda, querem nos tirar o que nós resta para produzir, como o benzoato de Emamectina, que é o mais indicado ao combate e controle da Helicoverpa, por exemplo. Estamos em um momento crítico da produção brasileira: alto custo, insegurança jurídica, falta de logística e etc. E, mais uma vez estamos caminhando para uma safra em que os custos estão formados, os mais altos da nossa história, com a produtividade a cada ano caindo e preços apertados, fazendo os produtores perderem de 2 a 5 dólares por saca de soja produzida, por conta da ineficiência logística. AQUI EM MT - Em Mato Grosso, maior produtor nacional de soja, a perda de rendimento, ou a falta de expansão dela, é bem visível na série histórica do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea). Com números projetados para a safra 2014/15, o Imea aponta para um crescimento de 3,9% na área plantada e de apenas 0,98% em produtividade. Nas últimas cinco safras, o rendimento por hectare plantado passou do recorde de 53 sacas em 2010/11 para 50 em 2011/12 e fechou 2013/14 com 52 sacas, volume que até o momento está projetado para 2015/14. Não que ser o maior produtor mundial seja fundamental ao Brasil, o que realmente me preocupa são os fatores, nos quais a cada safra indicam que teremos uma produção recorde, mas no final terminamos com 5 a 6 milhões de toneladas a menos. Para a safra 2014/15 já se estima uma produção dos EUA bem maior que a nossa, claro que houve um incremento de área significativo. O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos aponta 98,9 milhões de toneladas para a próxima safra deles e 91 milhões para o Brasil. Se estivéssemos tendo avanços em produtividade chegaríamos a 100 milhões de toneladas. Se na safra passada tivéssemos tido a mesma média de 2010/11 teríamos 92 milhões t e já teríamos sido o maior produtor mundial de soja.