ECONOMIA
Sexta-feira, 07 de Maio de 2010, 21h:04
A
A
CRISE NO CAMPO
Mais de 500 ações em MT
Comissão de endividamento da Aprosoja conta que bancos
estão executando produtores inadimplentes para reaver débitos
MARCONDES MACIEL
Da Reportagem
Já passa de 500 o número de ações de execução de contratos com busca e apreensão de máquinas, movidas pelos bancos contra produtores rurais mato-grossenses. Só este ano, segundo a Comissão de Endividamento Rural da Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja), já foram distribuídas mais de 200 ações de execução contra produtores inadimplentes. Pelo menos dois bancos já tomaram a iniciativa e outros tendem a seguir o mesmo caminho para reaver créditos referentes a financiamentos de máquinas e implementos agrícolas. Os produtores estão sofrendo pressão violenta dos bancos na Justiça devido à incapacidade de pagar as parcelas dos investimentos e a situação está tomando uma proporção bastante perigosa, alerta o presidente da Comissão da Aprosoja/MT e vice-presidente do Sindicato Rural de Rondonópolis, Ricardo Tomczyk. As parcelas do endividamento referem-se basicamente às operações de Finame, com recursos do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social). Estamos na eminência de votar no Senado uma prorrogação das dívidas para evitar o aumento da inadimplência e uma enxurrada de ações na Justiça, afirma Tomczyk. Segundo ele, as parcelas estão vencendo desde o mês de março. Tem inclusive parcelas vencidas no ano passado e que até agora ainda não foram pagas porque o produtor está sem dinheiro. Levantamento da Aprosoja/MT mostra que 32% dos produtores mato-grossense não pagaram as parcelas de 2009 e 65% deles já anunciaram que não vão conseguir pagar em 2010. Para tentar amenizar a situação, os produtores estão tentando aprovar a prorrogação das parcelas de 2009 e 2010. A emenda tem como autor o senador mato-grossense Gilberto Goellner e, como relator, o senador Romero Jucá. As dívidas referem-se aos contratos do BNDES, FAT-Giro, FCO (Fundo Centro-Oeste) e custeio repactuado, e giram em torno de R$ 2 bilhões. A proposta é consolidar o saldo devedor a partir da prorrogação e estender por mais três anos os prazos já existentes nos contratos. Tomczyk informou que o Ministério da Fazenda já se manifestou contrário à medida, daí a dificuldade para se chegar a um acordo para sua aprovação. Ele diz que a prorrogação vai dar um fôlego ao produtor e colocar os contratos em prazo de espera (carência) por mais um período. Ele contou que as dívidas vem rolando há alguns anos, incidindo juros exorbitantes, e hoje são consideradas impagáveis. Simplesmente não há renda que faça frente a essa dívida. É preciso um esforço de governo para readequar os valores a um patamar justo. Segundo os produtores, até mesmo o presidente Lula já reconheceu que as dívidas rurais têm aumentado desproporcionalmente, inviabilizando o pagamento e a vida daqueles que precisam trabalhar. Há uma necessidade urgente de que o presidente autorize modificar essa política de conversão das dívidas rurais com vistas a melhorar a atual situação dos produtores. Eles afirmam que a gravidade dessa realidade é que, uma vez inadimplente, o produtor rural tem suas dívidas executadas e seus bens confiscados pelos bancos, como ocorre atualmente em Mato Grosso. Estima-se que os produtores brasileiros pagaram apenas 3% de todas as dívidas renegociadas até agora. Esse passivo é composto de dívidas antigas de programas de investimentos, como Moderfrota e Finame Agrícola, que foram roladas em safras anteriores por causa da crise de renda e de efeitos climáticos no campo. Dados do Banco Central apontam que 22% da carteira de R$ 12,5 bilhões do programa Moderfrota foram provisionados pelos bancos e R$ 2,7 bilhões estão engessados como reserva para cobrir eventuais calotes.