ECONOMIA
Terça-feira, 17 de Março de 2009, 20h:22
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POUPANÇA
Governo já fala em mudar sistema
LU AIKO OTTA
Da Agência Estado Brasília
As mudanças no rendimento da caderneta de poupança que estão em estudo pelo governo não têm como objetivo proteger o pequeno poupador, ao contrário do que dá a entender o discurso oficial. Pelo contrário, o ganho ficará menor do que é hoje. A razão que leva a equipe econômica a mexer na remuneração das cadernetas é outro: evitar que falte financiamento para pessoas, empresas e para o próprio governo. A trajetória de queda da taxa de juros básica, a Selic, atualmente em 11,25% ao ano, tem reduzido os ganhos das aplicações em renda fixa. Em contrapartida, as cadernetas estão cada vez mais atraentes. O governo teme uma concentração de investimentos em poupança, pois isso teria como consequência o desequilíbrio entre as operações financiadas por elas e aquelas suportadas pelos fundos de investimento. Hoje, 65% do dinheiro depositado nas cadernetas é obrigatoriamente emprestado para financiar habitação e saneamento. Já os recursos dos fundos são usados, por exemplo, para financiar a expansão de empresas e para empréstimos pessoais. Os fundos de investimento também são os principais compradores de títulos da dívida pública federal. "Se as pessoas preferirem a poupança aos fundos, vai sobrar dinheiro para habitação", disse o economista-chefe do banco Fator, José Francisco de Lima Gonçalves. No ano passado, de acordo com o Banco Central, os bancos já deixaram de aplicar R$ 711,9 milhões em recursos da poupança que deveriam direcionar a empréstimos habitacionais. Por outro lado, explicou ele, a falta de investidores nos fundos poderá criar problemas para o financiamento do governo. Para o ex-diretor do Banco Central Carlos Thadeu de Freitas, economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio (CNC), o que mais preocupa é a perspectiva de falta de dinheiro para as outras linhas de crédito que não a habitacional. "Os bancos podem ter dificuldades em dar empréstimos", disse. Ele avalia, porém, que há tempo para o governo agir e evitar esse problema. Ao contrário de Gonçalves, Freitas acredita que o governo não teria problemas em vender seus títulos mesmo se houvesse concentração de dinheiro nas cadernetas. O Banco Central poderia baixar regras obrigando, por exemplo, a que os recursos da poupança não utilizados para financiamento habitacional fossem direcionados à compra dos papéis federais. Os dois economistas concordam, porém, que a remuneração das cadernetas de poupança precisa ser alterada. "A poupança é a única aplicação que ainda tem uma remuneração fixa", comentou Freitas. Hoje, a poupança é remunerada com 6% ao ano, mais a variação da Taxa Referencial (TR). "Num momento em que o juro cai, não tem mais condição de manter um instrumento com rentabilidade permanente." Gonçalves avalia que o governo terá de "apertar um pouco" a poupança e os fundos para manter o equilíbrio entre as aplicações. O governo, de fato, vem examinando alternativas que vão em direção a uma remuneração mais flexível para a caderneta. Por exemplo: dar a ela uma parte da variação da taxa Selic. Ou a inflação medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) mais um porcentual. Ou ainda uma taxa a ser fixada periodicamente pelo Conselho Monetário Nacional (CMN). Qualquer que seja a escolha, a mudança na remuneração das cadernetas precisaria passar pelo crivo do Congresso Nacional. (Colaborou: Fabio Graner)