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Colunistas
Domingo, 21 de Fevereiro de 2010, 01h:08

BENEDITO MARIA RONDON

Do Morse a Internet

BENEDITO MARIA RONDON
Especial para o Diário de Cuiabá
Rondon - esse o seu nome de guerra conforme seus amigos e colegas. Nascido Benedito Maria Rondon em 05 de abril de 1933, ele é filho de Altamiro Rondon e D. Maria da Costa Marques. Mas quem efetivamente o criou - já que sua mãe falecera quando ele tinha apenas três dias de vida - foi sua tia D. Aracy Costa Marques. DC Ilustrado - Como foi a sua infância? RONDON - Coxipó da Ponte é o meu bairro querido. Aqui nasci, aqui vivi toda a minha infância e juventude e, ainda hoje, casado com D. Rainildes Cardoso Rondon, vivo no agradável e agarrativo Coxipó da Ponte. Apesar de não gostar de carnaval, tomando de empréstimo a marchinha carnavalesca posso afirmar com segurança: “daqui não saio e daqui ninguém me tira”. Só Deus! DC Ilustrado - E o seu ingresso nos Correios e Telégrafos? RONDON - Entrei na década de 40, muito jovem ainda, nos Correios e Telégrafos, à época órgão do Ministério da Viação e Obras Públicas. DC Ilustrado - Quais foram os seus cargos? RONDON - Fiz de tudo nos Correios e Telégrafos. Fui telegrafista, rádio telegrafista, portador de carteira de primeira classe, chefe do serviço de rádio, chefe do serviço de linhas telegráficas e chefe do tráfego telegráfico de todo o Estado de Mato Grosso. DC Ilustrado - Qual era a estrutura dos Correios e Telégrafos antigamente? RONDON - Além do Diretor Geral, a repartição possuía duas chefias principais: do Telégrafo e dos Correios. Houve época em que comandava a parte telegráfica e o meu sogro, o saudoso Sr. Alvino Cardoso chefiava os Correios. Mas nunca por nepotismo - pondera - Cada qual, por mérito próprio, construiu a respectiva carreira na repartição. DC Ilustrado - Alguma frustração? RONDON - Eu queria ser engenheiro eletrônico, mas por capricho da segunda mulher de meu pai, que não vem mais ao caso relembrar, não pude concretizar esse sonho. DC Ilustrado - E qual colega se notabilizou? RONDON - Com certeza foi o Aluísio Paes de Barros. Ele era uma espécie de mascote dos mais velhos que o tratávamos com grande carinho e admiração. Jovem, brincalhão e gozador, Aluísio foi eleito o primeiro ou segundo maior rádio telegrafista do Brasil em concurso público de nível nacional, realizado no Rio de Janeiro. Dava gosto vê-lo em operação e digo isso com muitas saudades dos tempos idos. (Morador da Praça Bispo Dom José, chamada Mundeuzinho, centro de Cuiabá, Aluísio Paes de Barros vive hoje em Ribeirão Preto, no Estado de São Paulo e vem sempre a Cuiabá rever amigos e familiares). DC Ilustrado - Conte-nos da Radional. RONDON - A Radional era particular. Funcionava na Rua 13 de junho, em frente a antiga agência Candia e não passava de uma espécie de comunicação via rádio. Não eram poucos os cuiabanos que se serviam da Radional para comunicação com parentes e amigos. A exemplo dos rádio amadores, legião de abnegados que, autorizados e credenciados pelos Correios e Telégrafos prestavam inestimáveis serviços ao Brasil, a Radional também fez a sua parte. Só que a Radional cobrava por seus serviços, o que era natural, e os rádios amadores prestavam os seus serviços sem nenhum tipo de recompensa. Alguns tinham o amadorismo como hobby, mas, paralelamente ajudava e muito as pessoas principalmente nos casos de acidentes e doenças. Antigamente o povo tinha que se virar, fazendo um paralelo na célebre lei da física: “a cada ação uma reação.” Uns ajudavam aos outros dentro da maior naturalidade e a vida de todos ficava bem melhor. DC Ilustrado - Qual a diferença entre telegrafista e rádio telegrafista? RONDON - O telegrafista trabalhava lendo na fita, através das roldanas; o rádio telegrafista recebia o mesmo sinal, mas pelo sistema auditivo. Devo dizer que exatamente por isso muitos colegas rádio telegrafistas adoeceram porque passaram a ouvir zumbidos inexistentes, resultado de doença ocupacional. Havia um limite de duração para o nosso trabalho e quem se excedia no horário corria sério risco de adoecer. DC Ilustrado - E o telex? RONDON - O telex foi uma grande conquista principalmente para os maiores jornais do país que mantinham correspondentes nas capitais de Estado. Era uma espécie de máquina de escrever que podia ser operada com fita ou digitada diretamente. O operador de telex picotava uma fita e a transmitia para a Embratel que recebia os sinais e os transmitia aos destinatários. Já a digitação direta seguia o mesmo processo, mas com o operador teclando letra por letra. Muitos jornais compraram aparelhos de Telex e os instalaram nas casas dos jornalistas facilitando grandemente o trabalho de cada um. Internet Ainda não aprendi a gostar da Internet. Nem computador tenho, mas, os meus filhos e netos são craques nisso tudo. A mim basta a televisão que me transporta, com a rapidez que me satisfaz, para todo o mundo. Aliás, às vezes faço comigo uma idéia: Os vôos dos aviões eram mais seguros quando orientados por radio telegrafistas. Nós acompanhávamos os aviões por pequenos trechos, quase passo-a-passo e ficava mais fácil localizar a aeronave em caso de acidente. Hoje a segurança se reporta entre a saída e o destino o que dificulta enormemente encontrar-se o avião, por exemplo, em sinistros na região amazônica. O progresso, também ele, a meu ver, tem os seus prós e contras. O aquecimento global é a prova disso - pois não? Posso fazer uma revelação? DC Ilustrado - Conte-nos Sr. Rondon. RONDON - Antigamente os valores transferidos aos bancos não eram remetidos com identificação expressa como hoje. Nós, telegrafistas, recebíamos um código de impossível tradução e encaminhávamos essa mensagem ao gerente do banco destinatário que era o único detentor do segredo. Somente o gerente ficava sabendo qual o valor que estava chegando. Havia menos bandidos e mais segurança, inversamente de hoje. Carreira DC Ilustrado - Como era a escala funcional nos Correios? RONDON - Nos Correios e Telégrafos era assim: primeiro ingressávamos como telegrafista morse, depois rádio telegrafista, chefe de turma, chefe de manutenção, chefe de linhas e instalação e, finalmente, o maior de todos: chefe do tráfego telegráfico. Passei por todos eles e, ainda, fazia alguns bicos para viver com melhor conforto. Na Rádio A Voz do Oeste, por exemplo, com Brunini e depois com Alves de Oliveira e Adelino Praeiro, na década 50\60, decodificava o noticiário da agência de notícias Asapress que era a mantenedora dos informativos Grande Jornal Falado às 21 horas, Matutino H3 às 06:30horas e Correspondente Cruzeiro do Sul às 08, 11:55, 16 e 20:25horas, se não me engano. Acompanhávamos, dessa forma, os noticiários nacional e internacional, diariamente prestando um relevante serviço informativo aos rádio ouvintes de Cuiabá e de Mato Grosso. O melhor diretor DC Ilustrado - Qual foi o maior diretor dos Correios? RONDON - Honestamente, sem querer angariar simpatias, acho que o melhor Diretor dos Correios e Telégrafos de Mato Grosso, durante o meu tempo de serviço, foi o baiano Aurivaldo Oliveira. Ágil, operoso, participativo, esse grande baiano tinha até mesmo a virtude de se envolver, no bom sentido, nas questões particulares dos funcionários. Chamava no gabinete, ia ao encontro, dialogava sempre, e orientava a todos com discrição e espírito humanitário. Tivemos outros diretores que podem ter se destacado socialmente, mas, nenhum deles internamente como esse baiano Aurivaldo que deixou saudades de sua administração impecável. O ontem e o hoje Saudosista, como todo cuiabano da velha guarda, Rondon relembra com emotiva saudade do tempo em que, morando numa chácara vizinha do Patronato Santo Antônio, nas proximidades da Chácara dos Pinheiros, no Coxipó da Ponte, atirava miúdos de porco para despistar os enormes cachorros Fila e, assim, pular o muro e colher doces laranjas. Bom tempo, certamente, quando se trocava miúdos por laranjas. E o sarapatel como ficaria nessa história? “OLHA – eu quero dizer a você – antes era tudo mais fácil: o pão vinha na porta, o verdureiro na porta e até o peixe, fresquinho, nos chegava diariamente à porta de casa a preços bastante razoáveis, pois, todos podíamos comprar. Convivo com o progresso, especialmente da medicina, abre a camisa e mostra o peito rasgado pelas quatro safenas e uma mamaria, “mas que antigamente a vida era bem mais fácil e tranqüila, disso não tenho dúvidas. São tempos que não voltam mais e que os mais insensíveis, a pretexto do progresso, querem tirar até da nossa lembrança já que da nossa história já tiraram, não é mesmo?”

Edição EDIÇÃO 16968




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