CIDADES
Sábado, 10 de Novembro de 2012, 14h:13
A
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HIPPIES
Últimos integrantes
Praça da República é considerada um ponto de encontro e no local, eles vendem artesanatos e tentam resistir ao fim do movimento
STÉFANIE MEDEIROS
Da Reportagem
Encostados nas muretas que circulam as estátuas e vegetação da Praça da República, estão os panos pretos exibindo pulseiras coloridas, anéis de coco, brincos de pena e colares de semente. Os artesãos, com os braços cobertos de tatuagens e cabelos trançados com dreads ou amarrados com lenços, sentam-se próximos, dando ao lugar a reputação de ponto de encontro dos hippies. Eles atendem os clientes com saudações calorosas, com perguntas do tipo eaí, maluco?!, ou posso te servir, moleque doido?!. No entanto, na presença da reportagem, eles se acanham e negam uma entrevista. Duas argentinas que haviam chegado à Cuiabá há quatro dias tentaram negociar seus relatos com a equipe de reportagem. Cobraram de cinco a dez reais para ajudar e contar suas rotinas. A gente chegou aqui recentemente, mas a situação está osso (difícil). Estamos tentando juntar dinheiro para ir embora, disse uma delas. Os outros se limitaram apenas a recusar a entrevista, dizendo estou tranquilo, ou explicando que não estavam no humor certo para falar. Cigano Impregnado, 59 anos, como gosta de ser chamado, foi o único que concordou em contar a sua história, era o mais extrovertido da praça. Andava como se estivesse em casa, muitas vezes deixando um pé do seu chinelo pra trás. Ficou alegre quando começou a aprender usar o aparelho celular que havia ganhado no dia anterior, e convidou-nos para um dia ver as fotos de suas viagens, que segundo ele, são confidenciais. Ele diz que já participou de movimentos de resistência e foi torturado na ditadura militar. Atualmente, o hippie das antigas vende artesanatos e é um dos últimos sobreviventes do movimento em Cuiabá. Cigano saiu da casa de seus pais com apenas uma mochila nas costas em 1969, quando tinha 16 anos. Depois de ter deixado a família e os amigos para trás, Ciganos viajou de bicicleta por vários estados brasileiros e grande parte dos países da América do Sul. Eu usei todas as drogas que você pode imaginar. A gente era da resistência. Eu já apanhei, fui preso, torturado, perseguido, disse. Desta época, o dia mais marcante para Cigano foi quando ele e uma de suas amigas foram capturados pelos policiais e depois torturados. Abusados sexualmente pelas autoridades, ele conta que depois que foi liberado, teve que se conformar. Não tinha o que fazer. Eu já apanhei tanto, mostrando as gengivas, sem nenhum dente, ele diz: eu perdi meus dentes nestas brigas, não foi depois não. Hoje ele tem residência fixa em Cuiabá, onde mora com seus três cachorros - Catraca, Raio e Bike - todos homenageando o tempo em que atravessava as estradas de bicicleta. Ele parou de viajar para tratar de suas seis doenças, adquiridas pelo abuso de drogas e bebidas: cirrose, hepatite, hanseníase, enfisema pulmonar, asma e bronquite. A única coisa que eu não peguei foi HIV. Para conseguir o tratamento com sua renda de vendedor de bijuterias artesanais, pois não se considera mais hippie, Cigano conta com a ajuda de programas de auxílio do governo, como a garantia de cestas básicas, nutrimento e o acesso a remédios de alto custo. Somente uma das vacinas que precisa tomar gira em torno de R$ 300, cada. Não tem mais como eu viajar. É ficar ou morrer.