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CIDADES
Segunda-feira, 23 de Julho de 2012, 21h:44

VÍCIO

Talento que o futebol perdeu para as drogas

Requisitado por times do bairro, Marcos Antônio Corrêa da Cruz era uma promessa da bola, mas as drogas lhe tiraram a chance de ao menos tentar

ALECY ALVES
Da Reportagem
Requisitado por colegas da escola, times do bairro e de outras comunidades próximas, na adolescência, entre os 13 e 15 anos, Marcos Antônio Corrêa da Cruz poderia ser considerado uma promessa no futebol local. No bairro 24 de Dezembro, em Várzea Grande, onde vivia com a mãe, Maria de Fátima Oliveira, era admirado pela habilidade com a bola nos pés. Até recebeu o apelido de um grande craque dos gramados brasileiros, “Biro-Biro”, mas inclusive isso ele perdeu para as drogas. Aos 32 anos, perturbado mentalmente e vivendo nas ruas como indigente, Marcos tornou-se o martírio da mãe. Dona Maria conta que por causa da drogas o filho já foi diagnosticado esquizofrênico e, por conseqüência, psiquicamente incapaz. Vê-lo revirar as lixeiras em busca de comida, como aconteceu diversas vezes, deixa Maria de Fátima emocionalmente abalada. “Meu coração dói; ele não precisa fazer isso, tem mãe e moradia”, desabafa. “Eu também já perdi minha identidade, não sem mais quem sou e nem o que fazer”, completa. Dias atrás, na tentativa de manter o filho em casa, planejou amarrá-lo dentro do quarto, mas desistiu da idéia ao ser alertada por um policial que poderia ser presa e enquadrada por maus-tratos, cárcere privado e outros crimes. “Cheguei a esse ponto”, surpreende-se. Na casa simples que deveria compartilhar regularmente com o filho, o quarto de Marcos teve de ser separado por um portão. Isso ocorreu depois que ele a agrediu com uma pedrada na cabeça, cujo ferimento resultou em sutura com sete pontos. Além da pasta-base, Marcos fuma e bebe cachaça. Ele também já apanhou e sofreu ameaças de morte por causa de dívidas contraídas com traficantes. O maior medo dela é que o filho acabe como a grande maioria dos colegas dele, mortos por traficante. “Assim como o Fabinho, o Camambau, o Dieguinho...” No cômodo em que deveria dormir nenhum objeto é duradouro. Recentemente, dona Maria de Fátima comprovou um ventilador para o filho e antes de levá-lo para o quarto praticamente o destruiu. Deixar o aparelho com a aparência de envelhecido, sem valor comercial, seria a única maneira de impedir o venda ou troca por drogas. Ela diz que está cansada de comprar roupas novas, fazê-lo tomar banho e vesti-las, para no dia seguinte vê-lo maltrapilho, usando peças que trocou por drogas na boca-de-fumo ou com outros moradores de rua. Maria de Fátima também perdeu as contas de quantas vezes tentou interná-lo e viu portas se fechando à sua frente. Da última vez, com a ajudar de amigos, o levou para uma chácara terapêutica na região de Poconé, mas como era um local aberto, o filho fugiu. Distante mais de 100 quilômetros de Várzea Grande, a mãe diz que Marcos quase retorna primeiro que ela. “Ele chegou em casa 30 minutos depois de mim”, reclama. Marcos, recorda a mãe, nunca foi um menino tranqüilo. Desde bebê era agitado e lhe dava trabalho na escola, mas levou os estudos até o final do ensino fundamental (8ª série). Tinha tanta energia que nem o futebol conseguia controlar.

Edição EDIÇÃO 16962




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