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CIDADES
Sábado, 27 de Outubro de 2012, 19h:26

REFÉM

Seis horas de terror

Agente ficou refém de um preso, que responde por homicídio e latrocínio, e está há dois meses em tratamento psicológico

STÉFANIE MEDEIROS
Da Reportagem
Em uma cela escura do Centro de Ressocialização de Cuiabá (CRC), uma agente prisional era forçada a drogar um preso, que a matinha refém com um chuço (arma artesanal) no pescoço, ameaçando-a de morte a todo o momento. Foram seis horas de negociações até que Juscelino Basílio da Costa, 37, preso há treze anos pelos crimes de latrocínio (roubo seguido de morte) e homicídio, libertasse Ângela Maria Cruz, 50. Dois meses depois, Ângela, de licença e sob tratamento psicológico, concedeu uma entrevista ao Diário para relatar os dramas de se trabalhar no sistema prisional. Segundo ela, falhas humanas e esquemas entre os reeducandos permitem que situações caóticas ocorram no CRC, mais conhecido como “Carumbé”. Ângela explicou, em primeiro lugar, que os agentes fazem revistas semanais no CRC, e sempre encontram drogas e objetos que podem ser usados como armas. De acordo com a agente, quanto mais revistam, mais coisas acham, e ainda não descobriram como os detentos têm acesso às substâncias ilícitas e armas artesanais. O drama daquele dia começou quando Juscelino, depois de ter tomados seus remédios, deveria ter voltado para a cela, assim como todos os outros presos. No entanto, ele se recusou a ir para a ala M, onde ficava junto com os outros detentos de alta periculosidade. A agente explicou que, como ele devia dinheiro a outros presos e sempre causava confusões, sofria ameaças e temia por sua vida. No pátio do CRC, ele tentava negociar a transferência para outra ala. “Mas o chefe se recusava a atender esse pedido”. Neste período em que tentava negociar a mudança de ala, Juscelino ficou solto por mais de quatro horas. Foi no momento que Ângela passou para entregar documentos aos advogados que Juscelino correu em sua direção e a agarrou, arrastando-a consigo e gritando ameaças. “Nesse tempo que ele ficou em liberdade deu pra conseguir o chuço, drogas e arrumar o local, onde me prendeu e torturou”. No momento em que foi agarrada, todos os agentes prisionais que estavam nas proximidades correram para longe, permitindo que Juscelino se apossasse de Ângela. “A orientação é pra que quando alguém for feito de refém, os outros saiam de perto, mas a meu ver, se um ou dois colegas tivessem ido pra cima dele, toda essa situação poderia ter sido evitada”. Trancando Ângela em uma cela, com o chuço sempre no pescoço da agente, Juscelino a ameaçava constantemente, falando que cortaria sua orelha ou seu dedo para mostrar aos policiais que estava falando sério quando dizia que mataria a servidora. A maior surpresa, contou ela, foi quando o reeducando abriu o bolso dele, que estava cheio de cocaína. “E ele me forçava a levar o pó até o nariz dele pra poder cheirar. Além disso, ele exalava um cheiro fortíssimo de cachaça. Ele ficou se drogando durante as seis horas em que ficamos lá na cela”, disse. Juscelino reivindicava sua transferência para outra unidade prisional, e exigiu a presença do juiz Wlademir Perri, da Vara de Execuções Penais da Capital, e da advogada Betsey de Miranda, que representa a Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB Mato Grosso), além do secretário-adjunto de Gestão Penitenciário, coronel Clarindo Claro, o superintendente do sistema prisional, Gilberto Carvalho, e o comandante do Batalhão de Guardas, coronel Maurício Domingues. “Mas foi passando o tempo, as reivindicações eram atendidas e ele mudava de ideia. Ele já estava tão entorpecido que não sabia mais o que queria”, contou Ângela.

Edição EDIÇÃO 16960




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