CIDADES
Sexta-feira, 14 de Dezembro de 2012, 20h:33
A
A
SEM REMÉDIO
Pacientes temem perder transplante
Medicamento é de uso contínuo e está em falta há três meses na Farmácia de Alto Custo, o que gera risco de perda do órgão
STÉFANIE MEDEIROS
Da Reportagem
Em outro país e com um pedido de transplante de fígado negado, Pedro Alves (nome fictício) começou a passar mal: vomitava sangue, sangrava pelos ouvidos e não conseguia se levantar. Uma amiga sua, no desespero, levou o processo ao juiz, que ligou para o médico do hospital para confirmar o caso. Este paciente está internado aqui sim, mas não dura muito mais não. Com esta avaliação, Pedro conseguiu que o juiz determinasse a cirurgia, que hoje, corre o risco de perder por falta de medicamento na Farmácia de Alto Custo. Um ano e sete meses depois do transplante, Alves tem que tomar 12 remédios por dia para manter-se com a saúde estável. O principal deles, o Ciclosporina, como noticiou o Diário nesta quarta-feira (12), não está sendo fornecido pelo Estado há três meses. E os pacientes transplantados começam a temer o pior. A gente faz tanto sacrifício pra conseguir o transplante. Eu fui a três países pra conseguir um, e agora tem o risco de perder por causa de remédio? Se precisar eu vendo meu carro, mas e as outras pessoas?, questionou, indignado. Alves descobriu que tinha cirrose depois de ter tido uma crise, onde passou muito mal e foi parar no hospital. Mas não foi cirrose por conta de bebida alcoólica, mas porque meu fígado não eliminava o ferro. De acordo com ele, a doença só se manifestou vinte anos depois, no ponto em que Alves já era um forte candidato para um transplante. Mas a fila do Sistema Único de Saúde era muito longa e Alves já tinha os dias de vida contados. Como em Cuiabá não há um centro de transplantados ou atendimento especializado, ele foi se consultar e procurar tratamento no Rio Grande do Sul, onde tem família. Seu médico foi categórico: No seu estado atual, você tem, no máximo, um ano e meio de vida. Passou pela Itália e pela França em busca de um transplante mais urgente, mas em nenhum dos dois países conseguiu. Foi na América do Sul que um menino de 18 anos com morte cerebral salvou sua vida. E depois de tudo isso, a gente tem que tomar as doses certas do remédio, não só pra não passar mal, como pra não perder o transplante. Alves ainda denuncia a excessiva burocracia para conseguir o remédio. De três em três meses eu tenho que provar que fiz transplante. Que história é essa? Quer dizer que se passar um tempo o meu transplante vai sumir?!, disse, referindo-se a necessidade de, dentro deste período, iniciar um novo processo. Ele explicou que, para fazer o requerimento do remédio, precisa pegar três fichas na Farmácia de Alto Custo: uma pra ele, uma para o remédio e uma para o médico. Precisa se consultar, o especialista escreve uma receita e um perito da Secretaria de Estado de Saúde (SES) analisa e aprova ou não o pedido. O meu especialista está no Rio Grande do Sul. De 45 em 45 dias eu viajo pra lá pra fazer os exames. Mas tenho que ter outro médico aqui também por conta desse processo, que é um absurdo. De acordo com a assessoria da SES, o pedido do remédio já foi finalizado e estava previsto para chegar esta semana. No entanto, ainda não chegou, e a secretaria está no aguardo.