CIDADES
Sábado, 12 de Maio de 2007, 13h:08
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JUSTICEIRO
Novo Colorado pede a volta de Sapinho
Moradores alegam que com a prisão do protetor, assaltos e outros atentados voltaram a ocorrer no bairro. População faz cota para pagar advogado
ALINE CHAGAS
Da Reportagem
No bairro Novo Colorado, região oeste de Cuiabá, um fato inédito lembra muito a realidade dos grandes centros do país. Moradores e trabalhadores do bairro iniciaram uma verdadeira cruzada para libertar Flávio de Castro Lima, o Sapinho, 20, preso no dia 6 de maio (domingo), acusado de diversos crimes. Sapinho é considerado pela maioria da comunidade uma proteção contra a violência. Sapinho foi preso sob acusação de tráfico de drogas e homicídios. Apesar das acusações das polícias Militar e Civil com a quais algumas pessoas do bairro até concordam -, a sensação de proteção que ele passa faz com que sua ficha criminal seja relevada. Um abaixo-assinado está circulando por todas as casas e estabelecimentos comerciais do Novo Colorado e adjacências. Até sexta-feira, 186 pessoas haviam assinado o papel que pede a liberdade de Sapinho. Outro documento, com quase 40 assinaturas, mostra o nome e os valores de doações para pagar um advogado. Na quinta-feira, a comunidade conseguiu entregar R$ 500 para seu defensor, que tenta tirá-lo da cadeia. Do lado dos nomes, os valores das doações chamam atenção. A maioria é de montantes altos, como R$ 20, R$ 50 e R$ 100. A necessidade de mais dinheiro para o pagamento da defesa de Sapinho leva os moradores a idealizar um sorteio para arrecadar fundos. Os prêmios: uma panela de pressão, um jogo de colar e um vestido. Esse será o primeiro bingo que a comunidade fará para ajudar Sapinho. São duzentos números, cada um a R$ 2. Os organizadores esperam que todos sejam vendidos. Hoje, dia do sorteio, para não passar em branco a premiação, haverá um café da manhã comemorando também o Dia das Mães. O segundo bingo, sem prêmios definidos, acontece no próximo domingo. Os organizadores estão animados com a aceitação dos moradores e acreditam que arrecadarão no mínimo R$ 200 para o advogado. Na comunidade, é difícil encontrar um morador que não defenda a volta de Sapinho. Mesmo aqueles que admitem não conhecer direito o rapaz alegam que ele trazia paz ao bairro. De acordo com os moradores, Sapinho era uma espécie de xerife do Novo Colorado. A adolescente L.V.A., 16 anos, conta que tudo começou quando houve um tiroteio no bairro, há cerca de dois anos, e uma moradora foi baleada quando levantou para tomar água. A bala atravessou a janela da casa e a moradora ficou paraplégica. Os autores do tiro, segundo a menina, são adolescentes de um bairro vizinho, que tem rixa com os rapazes do Novo Colorado. Logo depois desse fato, conforme relatos, Sapinho voltou do Centro Sócio-Educativo para menores (onde cumpriu pena por homicídio) e começou a restabelecer ordem no bairro. Os moradores contam que o rapaz evitava que os garotos do bairro vizinho entrassem no bairro para roubar e procurar briga. Uma moradora que não quis se identificar conta que ele mandava recados para os meninos do bairro vizinho para não se aproximarem do Novo Colorado. A moradora R.M.A., 23 anos, alega que se sente insegura agora que Sapinho está preso. R. diz que 99% no bairro são a favor da volta dele porque tinham parado os roubos às casas, aos comércios e ônibus depois que o traficante mudou para o bairro. A moça revelou que desde a prisão de Sapinho, ocorreram dois assaltos a ônibus no bairro, uma das vezes, em frente à escola. R. conta que os moradores chamam a polícia, mas as viaturas não aparecem. A adolescente L.V.A. acrescenta que semana passada, um grupo de moradores do bairro vizinho foi até a escola durante a noite para ameaçar os alunos. Do lado de fora do prédio da escola, os jovens dispararam tiros e jogaram pedras na quadra, onde estavam estudando os alunos do cursinho para vestibular. Uma moradora (que não quis se identificar) que presenciou o fato na escola, diz que, além disso, os jovens do bairro vizinho mandaram o recado que no sábado (ontem) fariam um toque de recolher no Novo Colorado. A moradora fala que os alunos estão apavorados porque, nesse dia, as professoras chamaram a polícia, mas ninguém apareceu. Uma viatura passou na frente da escola depois de uma hora, mas nem parou. Agora, os alunos estão deixando de ir pra aula à noite com medo de sofrerem retaliações. Isso é um absurdo. É total ausência da polícia, o que só reforça o desejo da população do bairro de trazer o Sapinho de volta, comenta a moradora.