CIDADES
Quarta-feira, 26 de Outubro de 2011, 20h:32
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CONSCIENTIZAÇÃO
Finados, dia de desarmar
Vítimas de violência aproveitam ocasião para mobilizar visitantes de cemitérios a abrir mão de armas em casa
DAFNE SPOLTI
Da Reportagem
No dia de finados, próxima quarta-feira, 2 de novembro, a Associação de Familiares Vítimas de Violência irá fazer um trabalho de conscientização sobre a necessidade de desarmamento da sociedade. Haverá entrega de cartilhas em frente a cemitérios de Cuiabá, Várzea Grande e Poconé. A ação faz parte da Campanha Estadual de Desarmamento, lançada dia 17 deste mês. Seguindo a campanha nacional, que já recolheu até setembro 25 mil armas, sendo que 12% eram de grande porte, Mato Grosso está com um sistema organizado em diversos polos em que as pessoas poderão deixar suas armas e ainda receber um protocolo que dá o direito a receber uma indenização no valor de R$ 100 a R$ 200. O presidente da Associação de Familiares Vítimas de Violência, Heitor Geraldo Reyes, acredita que a data de finados será importante para a ação de conscientizar as pessoas porque normalmente elas ficam comovidas nesse dia, o que pode contribuir para o entendimento da necessidade de desarmamento. De acordo com Heitor Reyes, ao contrário do que se pensa, as armas legais são as que mais causam vítimas porque normalmente vão para mãos de criminosos. Heitor perdeu seu filho Alexandre, que tinha 18 anos na época e morava em São Paulo. Um motorista atirou na nuca do rapaz, que estava no banco de passageiro de outro veículo. Isso por conta de uma briga de trânsito na cidade, em 2008. Segundo o professor Naldson Ramos, que também já perdeu familiar vítima de arma de fogo, o Núcleo de Estudos da Violência e Cidadania da UFMT, em que é o coordenador, é favorável ao desarmamento. Ele disse que 60% dos homicídios no país são causados por arma de fogo, dado, portanto, maior que assassinatos causados com arma branca (como facas), e outras diversas formas. Para ele, é uma ilusão achar que ter arma em casa é sinônimo de autodefesa. Pelo contrário. A arma acaba passando para a mão dos criminosos, além disso, pode causar acidentes. Conforme Naldson, em Mato Grosso ainda é muito pequeno o número de entrega de armas. Ele disse que nas últimas três campanhas foram recolhidas, conforme dados da Polícia Federal, apenas cerca de três mil armas ao todo. Parte desse número baixo, segundo ele, pode ser por conta de Mato Grosso - e também Mato Grosso do Sul - serem estados fronteiriços. É mais fácil passar [pelas fronteiras] com armas do que com drogas, enfatiza. Ele diz também que é um pouco cultural a noção de que a arma garante poder e segurança. O professor Naldson perdeu um sobrinho ano passado. Ele cometeu suicídio. Portanto, o professor reforça que há vários indícios de que ter uma arma em casa é um traço de vulnerabilidade. Quando são outras formas [de tentativa de suicídio] a eficácia é menor, ao contrário do que ocorre em relação à arma de fogo. PROGRAMAÇÃO - Serão ao todo 40 pessoas trabalhando com a entrega de cartilhas nos cemitérios da Piedade, do Porto e Parque Bom Jesus, em Cuiabá; no Recanto da Paz, em Várzea Grande; e no cemitério de Poconé. Na campanha do desarmamento deste ano, as pessoas que entregarem sua arma terão direito ao anonimato. Além disso, a arma será inutilizada imediatamente e o dinheiro poderá ser sacado após 24 horas da entrega em caixas-eletrônicos do Banco do Brasil ou da Caixa Econômica Federal. Em Mato Grosso, as entregas podem ser nas delegacias e comandos regionais das polícias Civil e Militar nos municípios polos do interior, além de Cuiabá e Várzea Grande.