Por trás da imagem da dona da “casa de entretenimento adulto” de Mato Grosso, que faz vídeos que viralizam nas redes sociais, há uma mulher com uma história comum a milhares de outras.
Katiane Souza Lima, 35 anos, é uma mãe com tripla jornada de trabalho que sofreu violência doméstica.
Ela foi vítima do ex-marido, por mais de uma década.
Leia também:
No Estado, 9 mulheres foram vítimas de feminicídios neste ano
A alegria retratada nos vídeos que, a cada dia, a tornam mais popular escondem o sofrimento da pobreza e dependência emocional e os horrores da violência do passado.
No município de Querência (945 km a Nordeste de Cuiabá), Katiane é dona da boate Green House (Casa Verde).
A casa noturna dela é a maior da pequena cidade mato-grossense de 27 mil habitantes.
O local oferece serviços de bar, quartos, piscina, música e mantém um quadro de garotas de programa que pode variar entre 10 e 20.
Divulgação
Casada e com mais dois filhos, do atual marido, Katiane deixou a prostituição para se tornar dona de negócio no mesmo ramo
A clientela, segundo ela, chega dos municípios da região, principalmente trabalhadores das áreas produtoras do agro, do turismo, da pesca, entre outras.
“Da cidade de Querência mesmo, são poucos clientes”, observa Katiane.
É de dentro da boate, entre luzes piscando, que saem os vídeos que alcançam milhões de visualizações.
Em um deles, reproduz a trend popular mundial em que empresários escolhem filhos, amigos, maridos, pessoas que fazem a publicidade do ambiente na empresa, sem fazer questão de vender.
No caso da boate Casa Verde, ela faz humor apresentando como atrativo a “mulher do futuro”.
O anúncio tem um homem de vestido vermelho, curto e colado ao corpo, com um copo de bebida na mão e trejeitos bem afeminados.
Somente nesta semana, o número de seguidores dela saltou de 95.800 para 115 mil, quase 20 mil a mais, em poucos dias.
Muitas postagens de Katiane dividem opiniões.
Para as críticas, ela tem respostas debochadas e confrontando “defeitos” dos críticos.
A “empreendedora noturna” se autointitula e chama seus seguidores de perfeitas e perfeitos.
Divulgação
Antes de começar a se prostituir, Katiane trabalhou com quase tudo - incluindo servente de pedreiro
PASSADO E PRESENTE - Nascida no Pará, em uma família de 5 irmãos, Katiane sabe bem o que é viver a pobreza.
Também conhece os horrores da violência contra as mulheres.
Em Rio Verde (Goiás), para onde se mudou com a família, aos sete anos, a vida foi difícil, marcada pela escassez.
A situação piorou ainda mais quando seu pai perdeu os dedos de uma das mãos, em uma máquina de serra.
“Meu pai não conseguiu voltar a trabalhar como serralheiro e foi para as ruas catar latinhas. Passamos fome”, recorda ela.
“Casei aos 15 anos, com um rapaz que conhecia desde os 12. Aos 20 anos, já era mãe de dois filhos. O primeiro nasceu quando eu tinha 17”, conta Katiane.
“Meu ex-marido, o homem por quem me apaixonei e acreditava ser o amor da minha vida, me agredia com frequência”, narra ela.
“Eu era dependente emocional dele. Vivíamos uma relação conturbada. Ele bebia muito e chegava de madrugada”, assinala.
“Brigávamos muito, mas continuávamos juntos. Eu não tinha força emocional e nem condições financeiras para pôr fim àquela relação doentia”, lamenta Katiane.
Ela diz que faltava tudo dentro de casa. Eu, no começo do casamento, sem ter idade para trabalhar, não tinha nem 18 anos, e era bem bobinha”, analisa.
Conforme Katiane, a vida só começou a mudar após ela atingir os 18 anos, quando começou a trabalhar e foi sorteada com uma casa popular financiada pelo programa federal "Minha Casa, Minha Vida".
O basta à violência doméstica aconteceu, segundo ela, quando já tinha a casa para morar.
“Ele (marido) chegou bêbado, como sempre acontecia, e partiu para cima de mim. Deu um tapa em meu rosto”, recorda ela.
”Nunca mais você toca em mim”, gritei.
Mas, sabe, ele ainda permaneceu em casa por mais uma semana, mesmo eu exigindo que fosse embora”, diz.
“Mesmo depois de sair de casa, ainda mandou a mãe dele buscar tudo que tinha dentro de casa. Ela chegou com um caminhão, mas levou somente um saco de lixo com as roupas dele. Enfrentei-a e não deixei que levasse nada”, diz, com força no tom da voz.
Antes de começar a se prostituir, ela trabalhou com quase tudo - incluindo servente de pedreiro.
Ela montou e ajudou a erguer paredes pré-moldadas de centenas de casas de bairros de alto padrão, em Rio Verde.
Em Querência, ela chegou há 10 anos para trabalhar como garota de programa.
Casada e com mais dois filhos, do atual marido, Carlos Ribeiro Borges, deixou a prostituição para se tornar dona de negócio no mesmo ramo.
A filha mais velha tem 18 anos.
Divulgação
Na cidade de Querência (945 km a Nordeste de Cuiabá), Katiane é dona da boate Green House (Casa Verde)
“Meu marido é um grande companheiro. Para se ter uma ideia, me apresentou à família sem esconder que eu era prostituta”, conta.
“Esta é minha namorada, a garota de programa que conheci na boate. Foi assim, direto”, recorda ela.
Bem recebida, Katiane diz que quem chocou-se foi ela, com a forma natural da recepção familiar e a postura então namorado.
Os dois estão juntos há dez anos.
Em Querência, Katiane diz que ainda há preconceito e é tratada como se não existisse.
Mas, a situação está mudando com sua popularidade e o dinheiro que sua boate faz circular na cidade.
Instagram: katiane_perfeita_oficial




