CIDADES
Quarta-feira, 23 de Março de 2011, 20h:51
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LUCAS DO RIO VERDE
Agrotóxico presente em leite materno, traz tese
Pesquisa de mestrado da UFM aponta níveis de contaminação com pesticidas
Os milhões de litros de agrotóxicos despejados nas lavouras do Estado estão contaminando até o leite materno das mato-grossenses. É o que constatou uma recente pesquisa realizada em Lucas do Rio Verde (a 354 Km de Cuiabá) com 62 mulheres, o que representa 20% das parturientes da cidade em 2010. Todas as amostras de leite materno colhidas apresentavam traços de dez tipos de inseticidas, herbicidas, etc. A pesquisa realizada em Lucas do Rio Verde como uma tese de mestrado apresentada recentemente na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) é parte de um estudo maior, com apoio da Fiocruz, sobre os impactos dos agrotóxicos no Centro-Oeste. Relatórios foram enviados a órgãos como secretarias de Saúde e de Agricultura e ao Ministério Público, segundo o pesquisador Vanderlei Pignatti, da UFMT, que considera a situação encontrada em Lucas do Rio Verde como representativa de um contexto maior. Segundo ele, há pelo menos outros 40 municípios em Mato Grosso que utilizam mais de 1 milhão de litros de agrotóxicos por ano nas lavouras do entorno em Lucas, foram 5 milhões em 2009. Nesses locais, tal como em Lucas do Rio Verde, a presença de agrotóxicos no leite materno, na urina, no sangue e até na gordura da população também é perfeitamente possível, assim como se pode encontrar traços de veneno em poços artesianos, na água da chuva e até no ar como demonstrou monitoramento de dois anos realizado em pátios de colégios. Um dos agrotóxicos encontrados, o inseticida endosulfan, é um dos mais perigosos à saúde humana e já foi abolido da União Européia há mais de vinte anos. No Brasil, só será vetado em 2013. Diferente do leite de vaca (que se alimenta em pastos sujeitos a pulverização), a quantidade de veneno presente no leite materno o alimento mais importante para o recém-nascido não é regulada por legislação porque não deveria existir. Os graves efeitos do agrotóxico no organismo vão de câncer a distúrbios neurológicos e endócrinos. A exposição do corpo da mãe a agrotóxicos por inalação, ingestão ou contato - também representa risco de má-formação para o feto, especialmente nos três primeiros meses de gestação, como fissuras labiopalatinas, cujo impacto físico e psicológico na vida da criança é inestimável. O Hospital Geral Universitário, que há cinco anos tem o único serviço referenciado de reabilitação de más-formações no Estado, atende, em sua maioria, crianças de áreas de lavoura. Mato Grosso é o maior consumidor de agrotóxicos do país - utiliza 20% do total. Em nota, a prefeitura de Lucas questionou a pesquisa, dizendo que um grupo de trabalho irá avaliar os critérios utilizados, e alegou que o estudo se atém apenas a um episódio isolado ocorrido em 2007, quando um avião pulverizador atingiu o perímetro urbano. Pignatti corrige que o episódio ocorreu em 2006, mas que a pesquisa foi além disso e questiona o comprometimento da produção agrícola local e das autoridades com os limites para pulverização, já que há lavouras até nos quintais.