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BRASIL
Quinta-feira, 11 de Junho de 2026, 05h:51

SAÚDE

Suspensão da vacina da dengue do Butantan cria incerteza sobre ritmo de imunização em massa

Ministério da Saúde afirma que não há prazo para concluir investigações sobre possíveis reações adversas

MATEUS VARGAS
Da Folhapress - Brasília

A decisão de interromper o uso da vacina da dengue fabricada pelo Instituto Butantan criou incertezas sobre o ritmo do plano de imunização em massa contra a doença. O anúncio da suspensão foi feito nesta segunda (8) pelo ministro da Saúde, Alexandre Padilha, após o registro de 42 casos de reações adversas severas e duas mortes.

Eder Gatti, diretor do PNI (Programa Nacional de Imunizações), disse durante o anúncio que não há dúvidas sobre a eficácia da vacina e que a medida foi tomada por precaução, para avaliar os casos com "sinais de alerta" após a aplicação de mais de 500 mil doses.

O ministério da Saúde enfatizou que os eventos são raros, correspondem a 0,008% das doses aplicadas, e que não está certo o vínculo entre o uso da vacina e as duas mortes.

A Butantan-DV é a principal aposta do SUS (Sistema Único de Saúde) para proteger a população em uma estratégia de longo prazo. Além de ser aplicada em dose única, existe a expectativa de ampliar o contrato, que prevê entrega de 3,9 milhões de doses até o fim de 2027, para cerca de 60 milhões de vacinas.

O cenário de vacinação em massa, porém, depende da conclusão da análise sobre possíveis reações adversas do imunizante. A Saúde afirma que não há prazo para apresentar os resultados, enquanto o Butantan reconhece que irá reavaliar o ritmo de produção das doses.

"O tempo é o tempo necessário para que se conclua a investigação. Por isso a gente não coloca um prazo. Vamos cobrar diariamente o que está acontecendo [na investigação]", afirmou Padilha.

"Quanto mais rápido estiver concluída a investigação, com definição sobre uso da vacina, melhor para nós", disse.

O salto na produção da Butantan-DV passa por parceria do Butantan com a empresa chinesa WuXi Vaccines. O uso das vacinas feitas no laboratório estrangeiro ainda depende de certificações da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).

A decisão de suspender temporariamente envolveu debate de órgãos ligados ao PNI, com participação da Anvisa, secretarias locais de saúde e especialistas.

Antes de tornar pública a interrupção, técnicos do SUS apontaram receio de que o anúncio se misturasse ao debate eleitoral ao alimentar interpretações de um eventual desentendimento entre as gestões do presidente Lula (PT) e Tarcísio de Freitas (Republicanos), governador de São Paulo e aliado do clã Bolsonaro.

Para afastar essa percepção, o comunicado à imprensa foi feito pelo ministro Padilha ao lado do presidente da Anvisa, Leandro Safatle, e do diretor do Butantan, Esper Kallás. O instituto paulista é vinculado ao governo de São Paulo.

Padilha afirmou que o Butantan continuará a pesquisa clínica que a Anvisa exige para autorizar a vacinação no público com 60 anos ou mais. Hoje a vacina tem registro do órgão regulador para o grupo de 12 a 59 anos.

O imunizante do Butantan foi aprovado pela Anvisa no fim de novembro de 2025. No mês seguinte, o Ministério da Saúde assinou a compra de R$ 367,9 milhões por 3,9 milhões de doses.

Agora, o SUS terá apenas a Qdenga para a imunização contra a dengue. Em 2024, o ministério comprou cerca de 10 milhões de doses, por R$ 1,3 bilhão, da farmacêutica Takeda, que tem sede no Japão e é destinada ao público de 4 a 60 anos.

Padilha afirma que cerca de 8 milhões de vacinas já foram entregues e que o SUS deve receber mais 9 milhões de doses em 2026 e no próximo ano. A vacina da Takeda é destinada ao público de 4 a 60 anos.

As vacinas da Takeda e do Butantan custaram cerca de R$ 95 ao SUS, mas o ministério vê duas grandes vantagens no modelo desenvolvido no laboratório paulista: a imunização se dá com a aplicação de uma dose, enquanto a concorrente exige duas vacinas, e a parceria com a WuXi promete alavancar a produção.

A busca pela imunização em massa ganhou maior prioridade no SUS após a explosão de casos da dengue em 2024, quando foram registradas 6.321 mortes — em 2026, o ministério soma 177 mortes.

O número de 2024 se converteu em crise para o governo Lula (PT) e pressionou a então ministra Nísia Trindade. Em agosto daquele ano, ela afirmou que a principal aposta do SUS era a vacina do Butantan. "A vacina é uma estratégia que vamos continuar a utilizar, mas não é a principal estratégia para 2025. Pode ser que venha a ser para 2026, a depender do desenvolvimento da vacina do Butantan", disse à época.

 

 


Edição EDIÇÃO 16961




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