Quem não gostar de viagens, que atire a primeira pedra, mas o fato é que o assunto me seduz e eu me atrevo a falar dele aqui e agora, num espaço onde cabem exatas 45 linhas. Um psiquiatra meu amigo costumava dizer que quando você viaja as neuroses ficam, seguindo seus passos só uns cinco ou seis dias depois, de modo que durante esse hiato de tempo você sofre como que uma desneurotização, fica com a sanidade perfeita, o que equivale dizer que recupera a ingenuidade e pureza de infância, ao ser tomado por uma euforia de curtir coisas novas ou ainda da alegria de ver ou rever quem não via há muito tempo - em última análise - você fica totalmente zen, num estado inebriante de felicidade. Eu concordo com estas explicações em gênero, número e grau, porque tenho vivido emoções parecidas sempre que viajo. Acho que Marco Polo sabia do que eu estou falando. Alguém poderia argumentar que no caso de Marco Polo, tudo bem, que ele fez aquelas longas e demoradas viagens principalmente por sentir prazer em conhecer coisas novas, mas o que dizer das pessoas cujo trabalho consiste em viajar, como os motoristas de ônibus, pilotos e tripulantes de aviões, seria a mesma coisa? Como não, eu respondo. Seria exatamente o mesmo, a começar pelos motivos que pesaram na hora da escolha de profissão com essas características. Há quem prefira curtir com mais intensidade o período imediatamente anterior à viagem, às vezes até perdendo o sono de ansiedade; uns gostam da viagem propriamente dita, com todos os detalhes pitorescos e inéditos que ela oferece; e muitos apreciam sobremaneira a volta, porque já estão enjoados das novidades e querem porque querem retomar sua rotina velha de guerra e recheada de neuroses. A esta altura, quando o retorno passa a ser prioridade número um, ao primeiro sinal de que as neuroses já seguiram os passos do seu hospedeiro e recuperaram o controle da situação, isto é, se a viagem ficou chata, é sinal que as neuroses reassumiram sua cadeira cativa na mente do viajante. Nesse momento é melhor não fazer nada para retardar a volta, deve-se deixar que ele retorne sem demora, mesmo porque o nosso personagem deixou de ser uma companhia agradável. Não importa se você vai para longe, em viagem para a Índia ou Ilhas Seichelles, com duração de semanas ou meses, ou se você vai bem ali, em Acorizal, Leverger ou Livramento, o que conta é o estado de espírito. Depois de aprender a curtir as viagens, qualquer roteiro é divertido. Basta apenas que você mantenha a expectativa de enfrentar os percalços, sobressaltos e incidentes imprevistos como parte da aventura que você se propôs a viver. LUIZ CESAR DE MORAES é editor de Opinião do Diário
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