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ARTIGO
Quinta-feira, 30 de Julho de 2015, 19h:39

PAULO CASTELO BRANCO

Verdades secretas

Madrugada e o ancoradouro da Ermida Dom Bosco está vazio. O frio de fim de julho afasta até os amantes que buscam o local para trocar juras de amor. Um carro negro se aproxima das margens do Lago Paranoá e, dele, desce um homem vestido em roupas escuras, inclusive com capuz sobre a cabeça. O homem, em passos curtos e vacilantes caminha até onde está parada uma lancha também escura. Entra no barco, senta-se lentamente como fazem as pessoas idosas. O veículo se move rapidamente para o outro lado do lago. O homem é recebido formalmente e se acomoda em um desses carros elétricos usados em campos de golfe. Chega ao palácio que está parcamente iluminado, e um segurança observa tudo com binóculo infravermelho, sem conseguir identificar o visitante. Na outra margem do lago a mesma operação se repete para receber outra pessoa com as mesmas características só que mais alto e com andar mais seguro que o seu antecessor. O ritual se repete até o homem sumir no palácio. Em seguida, é a vez de um personagem vestido com longa capa preta. Pelo andar, parece ser jovem. Traz na mão direita uma valise volumosa. Entra na lancha e, também, some na escuridão das árvores que cercam o palácio. O insone morador do condomínio permanece em sua poltrona sem perceber que acabou de assistir a uma parte da história que mudará o país. Na sala de reunião do palácio, a presidente, após cumprimentar cada convidado, com os cuidados protocolares, submete aos presentes a intenção de gravar a conversa que iniciarão e que poderá ser fundamental para a estabilidade política do país. Todos concordam. A presidente liga o gravador e diz: ­- Senhores, obrigado por aceitarem o meu convite para participar desta reunião. Não desejo que imaginem estejamos iniciando uma conspiração contra o sistema que nos encaminha para o caos. Na verdade, o meu desejo é que, com a ajuda dos senhores, possamos mudar o rumo da nossa história e transformar o país em uma grande nação. O meu reconhecimento aos dois ex-presidentes presentes que, sem dúvida, contribuíram para a consolidação da democracia e da estabilização da economia. Agradeço, ainda, ao jovem magistrado que nos atendeu prontamente ao ser informado da pauta da reunião. Para que conste nos anais da história, e com a garantia de tornar a gravação secreta por vinte e cinco anos, solicito-lhes que pronunciem seus nomes completos e o período em que governaram. Farei o mesmo. Após o preenchimento da formalidade, a presidente iniciou a sua fala: - Quando fui escalada para ser a candidata à sucessão presidencial, assustei-me com a responsabilidade que me seria imposta, especialmente por eu nunca ter sido submetida às urnas e não imaginar qual seria o meu desempenho no exercício da presidência, se viesse a ser eleita. Pois bem, os senhores sabem sobre o meu passado de luta contra a ditadura. Muitos dizem que eu desejava trocar uma ditadura militar por uma comunista. Não é verdade, o que eu pretendia era uma sociedade mais justa e sem corrupção; sonho de adolescente. Na presidência, rodeada de especialistas em enrolar o povo, tentei colocar para fora do governo políticos habituados a surrupiar recursos públicos. Não consegui. Fui envolvida no turbilhão do poder e tive que recuar. Sei que, para garantir a minha reeleição, orientada por marqueteiros e políticos de má-fé, tive que mentir. Tenho sofrido muito com tudo isto que aí está, e que assumo ser da minha responsabilidade. Quero esclarecer alguns pontos da minha atuação para que melhor compreendam o meu convite que não é um desabafo; é um compromisso. A minha tática tem sido agir como agem os “Juízes para a Democracia”; busco na lei e nos procedimentos políticos a melhor forma de afastar e punir os corruptos. Com este sistema, sofro pressão de meus auxiliares, mas evito ceder totalmente aos interesses escusos. Com isto, assistimos, por inércia em alguns casos, e por isenção na maioria deles, à prisão de corruptos nunca vista em nossas paragens. É claro que ainda faltam vários a serem excluídos do jogo político, e creio que em algum momento teremos atrás das grades ou homiziada em algum país desmoralizado a cúpula do poder que nos domina. Este é o meu compromisso com os senhores, de quem espero a concordância para seguir nesta sinuosa missão, e o apoio quando o país ficar estarrecido com a inevitável extirpação do mal que nos assola. Os convidados, perplexos, aquiesceram em apoiá-la no momento certo, garantindo-lhe, se atingir a sua meta, uma retirada segura para um país civilizado e democrático. *PAULO CASTELO BRANCO é advogado www.blogpaulocastelobranco.com.br/@paulocastelobranco

Edição EDIÇÃO 16965




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