ROBERTO B. DA S. SÁ
Nem todos os dicionários de nossa língua registram o termo mangaio, embora corriqueiro no Nordeste. Esse termo dá nome a concorridas feiras, onde se encontra de tudo; aliás, o que é justamente a essência do mangaio. Isso está registrado numa canção popular em ritmo de forró , de Sivuca e Glorinha Gadelha. A música Feira de Mangaio imortalizou-se na bela e saudosa voz de Clara Nunes. Mas o que têm a ver as feiras de mangaio das cocadas, pássaros, pés-de-moleque, alecrins, canelas, farinhas, cabrestos de cavalo com as universidades? Com as públicas, pouco; com as particulares, tudo. Há dias, recebi ligação de um conhecido. Estava à frente do balcão de uma dessas universidades. O que fazia ele por lá? Escolhia um curso. Sobre o balcão, encontrava-se longa lista de possibilidades. Diante das ofertas, mas desprovido de orientação sobre os cursos, apelou ao primeiro ser que julgou pudesse ajudá-lo na escolha. Assim, perguntou minha opinião sobre o curso que poderia fazer, destacando ele próprio três dos que lhe pareciam ser razoáveis: Turismo, Rede de Computadores e Gastronomia. Disse ainda que estava achando tudo muito caro; que teria dificuldades de pagar fosse qual fosse. A família teria de ajudá-lo, mas que tentaria também bolsa de estudo ou vaga no ProUni. Assustei-me. Não consegui opinar. Eu não poderia compactuar com sua enganação. Foi aí que me lembrei das feiras de mangaio. Nelas, muitas vezes, induzido pelos pregões (antigo modo de publicidade movida pelo grito, em geral, cômico e eficiente) e na agitação de tais ambientes (nos quais não faltam ceguinhos tocando gaita, sanfona ou fole), o comprador acaba literalmente levando gato por lebre. Passado o susto, vieram algumas reflexões. De início, fiquei imaginando o que teria de proximidade entre os cursos listados ao futuro profissional de quem quer que fosse. Nenhuma; logo, como ficar em dúvida entre coisas tão díspares? Assim, qualquer que fosse sua escolha, fatalmente, seria a errada. Seguindo as reflexões, não conseguia ver em nenhum dos cursos nada que os aproximassem de alguma ciência; portanto, nada que justificasse estudá-los num espaço tido como universitário. Na verdade, se fosse há algum tempo cerca de 40 anos , qualquer um dos três cursos poderia ter sido ofertado pelo IUB: Instituto Universal Brasileiro. Por falar nisso, lembro-me de um tio já bem velhinho que é técnico em manutenção de rádios. À época, leu as apostilas recebidas pelo Correio. Fez as provas. Tirou um certificado do IUB. Se fosse hoje, esse mesmo tio talvez escolhesse Rede de Computadores. Leria as apostilas, mas vindas pelo emeio. Faria as provas. Teria um diploma universitário! Avanço? Não. Enganação. As autoridades deste país, com destaque aos da Educação, em conluio com o empresariado do setor, estão brincando com coisa séria. Estão ajudando no assalto aos jovens, principalmente, aos mais pobres. Muitos deles trabalham apenas para pagar a faculdade, em geral, sem qualidade alguma. É o império da lógica cartorial que já inundou também o ensino superior. Banalização completa. O preço disso virá num futuro. Quando a maioria perceber que está sendo ludibriada, uma revolta social poderá vir antes do que se pensa, se que é se pensa. Para retardá-la, por ironia, muitos estacionamentos de universidades viraram palcos de lixos culturais. Por alguns já passaram até traficante e assassino no trânsito; e juntos!!! A cultura do lixo é um achado à manutenção da ignorância. Assim, ao contrário dos sons das feiras de mangaio, dá-lhe lambadão, dá-lhe pancadão nos ouvidos de nossos jovens. Nesse império do bizarro e do barulho, onde se ordena que a gurizada tire os pés do chão e jogue as mãozinhas para cima, abafa-se o verdadeiro e necessário grito, mas um dia ele virá. * ROBERTO B. DA S. SÁ, Dr. em Jornalismo/USP. É Prof. de Literatura da UFMT
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