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ARTIGO
Terça-feira, 10 de Julho de 2012, 20h:54

ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ

Uma decisão e um discurso

Definitivamente, o futebol não altera minha rotina e nem o meu estado emocional, mesmo apreciando um bom “duelo” nesse campo. Foi o que o ocorreu na quarta-feira passada (04/07), quando o Corinthians venceu a Libertadores. Mas mais do que apreciar a partida em si, surpreendi-me com o discurso enunciado pelo treinador Tite, ao final do campeonato. Ainda que num momento em que tudo é só emoção, sob ensurdecedoras explosões de fogos, “olhares” de câmeras e microfones abertos para qualquer coisa, Tite – fugindo à regra – disse: “O mérito é o merecimento. Todo trabalho não saiu por acaso. A equipe tinha de ser competitiva e mostrar qualidade. Sem isso não se vence. E hoje ela mostrou ainda o componente da amizade, do coração. Eles se gostam, se respeitam; e isso faz a diferença". Mais adiante, lembrou e agradeceu outros clubes pelos quais passou: Grêmio, Internacional, São Caetano e Guarani; e concluiu: “Hoje é o momento que tenho mais visibilidade, mas se não ganho lá com o Veranópolis, não estava aqui". Desse discurso, há pontos significativos e “estranhos” para o momento vivido; por isso, podem nos servir de lição. De início, registro o fato de Tite não esquecer sua história. A vitória contra o Boca foi um importante momento sincrônico (deu-lhe “mais visibilidade”), mas não passou de um recorte pontual de um processo diacrônico. Ao fazer isso, Tite – possivelmente sem pretender – ensina, inclusive a muitos do campo educacional, que não podemos nos esquecer da história. Afinal, o “time” do presente é o acúmulo do passado. Sabendo disso, podemos projetar um futuro melhor. E na educação, a visão pós-moderna – que vem tomando conta de tudo e de todos – está jogando na lata do lixo a árdua construção da história humana; está relegando a planos inferiores, p. ex., todo pensamento clássico. Demagogicamente, tudo isso é um (mal)feito em prol do popular. Só esse destaque já seria o bastante para aquele momento em que o “pop” explode de felicidade. Mas Tite – a despeito de suas crenças – fez o mais difícil: não mencionar Deus naquele primeiro discurso, ainda no gramado. Contrariando uma tendência medieval – por ironia, cada vez mais em voga –, o “Professor” (os atletas assim o chamam) disse que o “trabalho não saiu por acaso”. E não mesmo. Assim, Tite conseguiu escapar da turba que – como caracteriza Chico César, na música “Perto demais de Deus” – “...não deixa deus em paz”; por isso, “o trata como um funcionário seu// Deus me livre, deus me guarde, deus me faça a feira...” Enfim, Tite, como poucos, teve a consciência de saber que ganhou invicto o difícil campeonato pelo mérito, pela capacidade de atletas que souberam, sob sua liderança, cultivar a amizade e o respeito. Esse cultivo fez da equipe um verdadeiro coletivo, sem maiores destaques às individualidades. Nesse sentido, destituído de autoritarismos, mas preenchido pela reconhecida autoridade por parte de seus “alunos”, aquele “Professor” foi um líder no Corinthians. Esse é o papel que todo docente deveria exercer no cotidiano. Ao provar a importância do trabalho em equipe, Tite contradiz outra dinâmica que faz mover a maioria dos contemporâneos sob a égide do neoliberalismo: o culto à individualidade. Daí a importância do esporte coletivo; e, no Brasil, com destaque ao futebol, quando este não é tomado por fanatismos que, em geral, mancham a beleza do próprio esporte. Por isso tudo, meus cumprimentos ao Professor Tite que, além de se tornar campeão, relembrou lições tão caras à existência humana. *ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ - dr. em Jornalismo/USP e prof. de Literatura/UFMT

Edição EDIÇÃO 16960




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