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ARTIGO
Quinta-feira, 19 de Março de 2009, 21h:50

ONOFRE RIBEIRO

Um Jeca que já não há

Tomo a liberdade de copiar do amigo Kleber Lima o tema deste artigo. Na edição desta quarta ele escreveu no espaço logo abaixo o delicioso artigo “Versos singelos”, em que fala da música “Tristeza do Jeca”, escolhida em concurso feito pela “Folha de São Paulo” como o maior clássico da música caipira brasileira. Quando li sobre o concurso me dispus a escrever um artigo a respeito. Já fiz algumas palestras sobre a evolução da música popular brasileira, desde as “Tristezas do Jeca” até o rock de agora. Comecei sempre por essa música que representa uma alma melancólica de um brasileiro da roça, de um tempo que durou até lá pelo fim dos anos 50. Lembro-me, até porque fui educado ao pé do rádio, lá na minha pequena Campos Altos, em Minas, ouvindo o mundo de então. O Brasil tinha 50 milhões de habitantes, dos quais 70% moravam no campo e, os 30% que viviam no mundo urbano, estavam em cidades cuja maioria eram extensão do mundo rural. O Brasil era um país caboclo. E a crueldade do preconceito urbano era impiedosa desde aquela época. O caboclo era chamado de Jeca Tutu, de cafuçu, de roceiro, de arranca-toco, de capiau, de pé rachado e de outros adjetivos pouco delicados. Na década de 50, o governo Getúlio Vargas iniciou a industrialização do país, que provocou um imenso êxodo do Brasil rural para as cidades. Nas cidades, o caboclo continuou vítima do preconceito. Vivia nas periferias das cidades e fazia serviços subalternos, além de ser considerado como um cidadão de segunda linha. O caboclo sentiu isso. Já não cantava mais na cidade as suas tristezas, tampouco as suas festas interioranas, não falava mais das suas pescarias, dos seus amores e desilusões, não cantava mais a sua mula preta, nem o cavalo zaino, não falava dos berrantes, das boiadas e nem dos rodeios. Ficou mudo de vergonha! Pois bem. A segunda geração continuou com o mesmo complexo. Só a partir da década de 70 que o ex-cantor da jovem guarda, Sergio Reis, resgatou o pé de cedro, o menino da porteira e o chico mineiro que alimentavam o imaginário caipira do Brasil rural. Depois dele Milionário e José Rico deram seguimento. Depois virou moda. Renascia ali a música caipira. Dos anos 80 em diante os descendentes dos caipiras migrados nos anos 50, voltaram a cantar uma música no estilo das velhas duplas sertanejas, mas com a temática urbana. E as músicas revelam exatamente o desajuste, a perda dos amores, os desencontros e a mesma melancolia das tristezas dos jecas, travestidas de uma dramatização igualmente sofrida. No momento em que especialistas em música, arte e cultura, escolhem as “Tristeza do Jeca” como a melhor música caipira do Brasil, fica a agradável sensação de que, afinal, o preconceito urbano contra o mundo rural não é tão forte assim. Parece que os jecas do Brasil foram absolvidos do pecado de serem cafuçus e capiaus, na principal cidade do país. Como amante da música caipira com quem convivo desde a minha infância, fiquei de alma lavada e esperançoso de que história do Brasil rural seja reavivada! * ONOFRE RIBEIRO é articulista deste jornal e da Revista RDM [email protected]

Edição EDIÇÃO 16964




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