É um tema recorrente e vive a nos atormentar. A dificuldade dos grandes artistas em se repetir. Tenho um amigo que gosta de brincar que ás vezes sonha com a volta da ditadura só para ver se Chico Buarque, Ivan Lins, Aldir Blanc etc, voltarem compor. Parece que o alimento desta turma era a censura. Se estão todos ai, porque pararam de produzir?. Lembro, a cada lançamento de um deles era um ritual. Comprava se o disco, ouvia se diariamente e depois partia para um boteco para discutir a exaustão cada musica, músicos, participações especiais etc. A espera dos lançamentos era uma agonia. O Novo de Caetano, o Novo de Chico, assim que eram tratados. Não conseguem fazer nada como daquela época. Por exemplo, os citados ai atrás, o primeiro virou critico de costumes e política e o segundo cismou que é escritor. No cinema não é diferente. Porque Coppola não faz alguma coisa parecida com o Poderoso Chefão e Apocalipse Now? Só parecido. Patina em fracassos e coisas medíocres. Os grandes diretores do cinema vivem em um processo de autocastigo. Se mediocrizando. O mestre, Scorsese, se respeita. Até seus fracassos são fracassos cults. E sempre há a possibilidade de ser um fracasso fabricado pela má vontade de mídia americana para com ele, pela sua predileção pela multiculturalismo nova iorquino. Tem horas que acho que ele só ganhou o Oscar com Os Infiltrados, por ter sido rodado em Boston. Cidade mais careta do mundo. Campo Grande perto daquilo é uma Amsterdam. Daria tudo na vida para conversar sobre isto com ele. O cinema era como na música, a cada ano os lançamentos. Todos lançavam e era uma guerra para se assistir. Cuiabazão nesta época não vinha todos. Era um deus nos acuda. Uma vez discutimos tanto um filme num boteco que uma amiga perdeu o emprego. Não chegou a tempo porque não abria mão do seu ponto de vista. Era médica e começava às 5 horas da manhã no hospital. Isto foi em uma Campinas provinciana no inicio da década de 80, mas que tinha salas de cinema maravilhosas. Tinha um crítico de cinema que nos dava ingressos e contávamos o filme para ele. Fiz para ele a crítica de O Homem Elefante de David Lynch. Tinha 21 anos de idade e me senti o sujeito mais brilhante do mundo. Guardei o jornal até estes dias. Mas voltando a proposta do artigo. Sentia a mesma coisa da obra de Almodóvar. Conheço toda sua obra e acompanho cada lançamento. Mas vinha enjoando. Aquela fotografia perfeita, aquelas cores idem, a combinação parecia saída da prancheta de um gênio da pintura. A música, feita brindando seu gosto musical (refinado, diga de passagem) mas desconecatada. Até que Adriana Calcanhoto solta aquela música ...cores de Almodóvar, cores de Frida Khalo..., era toda hora esta coisa martelando no rádio. Saquei, Almodóvar está correto demais. Estava virando clichê. Eis que o mestre reage. Sempre achei o cinema dele uma bela continuidade da obra de Manoel de Oliveira. Aquela sofisticação do inesperado, copiado do cineasta português, nunca me incomodou. Repete a fórmula neste ultimo filme fazendo arrepiar ao seu final. Isto sempre será irretocável na sua obra. Quem não se lembra de Penélope Cruz dando a luz a seu Baby dentro de um carro a caminho do hospital em um dos últimos filmes dele? Ela levanta a criança na janela do carro e lhe apresenta Madrid. Adorava mostrá-la diferenciada das cidades latinas, como São Paulo, Cidade do México, Lisboa, Barcelona etc. A preferia como uma cidade bem européia, Milão, Londres, Berlim, Hightec, globalizada. Isto estava ficando chato. Neste filme, batizado de Abraços Partidos e chegando a Cuiabá, a mesma atriz fugindo com seu amante tem de voltar à capital, fala, Madrid me dá medo. Em outra cena um DJ tem uma overdose. É a tragédia urbana beijando as portas de sua amada cidade. O mundo das cores e da felicidade que estava impregnando a obra do grande cineasta espanhol foi embora. Temos de volta seu humor radical e a verdade escancarada sem cair no cansado realismo. A fotografia normal, sem exageros da falsa beleza feita no computador. A música apenas em um momento adquire aquela coisa pessoal. Do diretor. Autoral tudo bem, mas respeitando o roteiro que se pagou pelo ingresso para ver na tela. A verdade é que o mestre voltou. Voltou com sua narrativa multifacetada, não linear, sem aquela necessidade de se mostrar complicado, que talvez tenha sido o enterro do cinema europeu. * PAULO RONAN é economista
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