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ARTIGO
Terça-feira, 21 de Junho de 2011, 21h:44

GABRIEL NOVIS NEVES

Sopa no mel

Todo o Brasil sabia, há dois anos, que a Copa do Mundo de 2014 seria realizada aqui. Seria um prêmio mundial de reconhecimento pelos esforços realizados pelo governo nos últimos anos. A Fifa, inclusive, aceitou um pedido do presidente da República e dos governadores de Estado que estavam deixando o poder, para aumentar o número de cidades subsedes de oito para doze. Seria a oportunidade de mostrar ao mundo o nosso avanço não só na área econômica, mas, principalmente, na social. Alguns cansados de guerra me alertaram para o perigo que corríamos com tantos canteiros de obras públicas neste gigante de mais de oito milhões de quilômetros quadrados. Citaram o recente escândalo dos Jogos Pan-americanos no Rio de Janeiro. As obras, que foram inicialmente orçadas em um bilhão de reais, quando finalizadas, ficaram em mais de quatro bilhões. A metodologia empregada no Rio foi aperfeiçoada e será implantada nas doze subsedes dos jogos da Copa. Aqui na nossa cidade, além do passeio para assistir ao sorteio pró-forma na Suíça - do Brasil como país sede da Copa - tivemos a farra pela TV do sorteio das subsedes, viagens internacionais do nosso pessoal e recebimento festivo, aqui, do pessoal de lá. A criação de uma autarquia para cuidar da Copa e a demolição do Verdão. Por esses dias, o eterno e o atual presidentes da Fifa virão a Cuiabá receber troféus, diplomas, títulos, enfim, tudo a que um benemérito tem direito pelos relevantes serviços prestados ao Estado. O tempo não anda, voa, e, daqui a dois anos, teremos a Copa das Confederações, que é uma ‘mini’ Copa do Mundo, para os países realizarem pequenos reajustes na sua infra-estrutura para o grande acontecimento. Com exceção da demolição e das reformas de alguns estádios de futebol, agora chamados de arena multiuso, nada mais aconteceu, não contando as brigas internas. Dinheiro que é necessário para preparar a ‘ex’ Cidade Verde para o grande evento internacional não existe, e a situação é a pior possível. Quando Cuiabá foi escolhida para subsede, a prefeitura foi muito honesta. Disse que daria todo o apoio moral para a construção das obras e que, em parte, resolveria os seus problemas. Dinheiro? Nem pensar! Construir avenidas com apoio moral, só mesmo na minha cidade. O governo do Estado, no dia da festa, disse que tinha economias para esse momento histórico. O grosso dos recursos financeiros necessários para - tirando a arena – a construção de um novo aeroporto, a solução para o problema da mobilidade urbana, os serviços básicos de infra-estrutura, os incentivos para o turismo, a segurança e a saúde, até o momento não passou de discursos e jogo de empurra. Descobriu-se que todo o dinheiro que o Estado tinha só deu para comprar dinamites para demolir o Verdão, pagar o premiado projeto arquitetônico e, quando do início da execução dos trabalhos de construção do estádio, reformulação de toda a sua estrutura, para que ele não viesse a desabar. Isso, evidentemente, encareceu o projeto, cujo valor hoje não é mais o da placa da obra. Na iminência de o Brasil perder a sede da Copa, a presidente encaminhou, em regime de urgência ao Congresso Nacional, um Projeto de Lei de Conversão de Medida Provisória, solicitando a instituição de um Regime Diferenciado de Contratação para as obras da Copa das Confederações, Copa do Mundo 2014 e Olimpíadas. A Câmara dos Deputados nem discutiu a matéria, que foi aprovada no mesmo dia, e subiu ao Senado para apreciação técnica de Sarney, Collor, Renan e outros senadores da ampla base aliada. Foi um ato revolucionário esse pedido de dispensa de licitação, pois estava em jogo a honra da nossa pátria. Ficou tudo mais fácil e rápido, por exemplo: o governo solicita um novo aeroporto em Cuiabá. A empresa escolhida faz o projeto, executa as obras e o governo paga, mas está impedido por lei de dizer ao contribuinte o valor da obra. Os antigos, diante de um fato como esse, comentavam: "É sopa no mel." *GABRIEL NOVIS NEVES é médico e ex-reitor da UFMT

Edição EDIÇÃO 16959




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