Nesta semana como em nenhuma outra muito se dirá a respeito da hospitalidade e alegria do povo cuiabano. Com certa razão, emendo. É tempo de festa, época em que a cidade comemora seus 292 anos. Um povo hospitaleiro, vai bradar a apresentadora do telejornal de meio-dia. Uma cidade que recebe como poucas no Brasil e, quem sabe, no planeta, reagirá um especialista mais habituado às plagas mundanas e tocado pela Copa que se aproxima. Ah, sim! Alguém também vai se lembrar de festejar a culinária, de salivar pela mojica de pintado, de suspirar pela farofa de banana ou de repisar a velha lenda da cabeça de pacu. Sou um pau-rodado que ama Cuiabá como se sua cidade fosse. E posso dar, aqui, meu testemunho sincero de que receber bem talvez seja um dom desta gente abençoada algo que percebi no dia em que aqui cheguei, lá se vão 15 anos. Também amo esta culinária saborosa e agregadora, brotada da originalidade do povo ribeirinho. Por isso mesmo, sinto-me reconfortado e representado ao assistir à louvação destes traços tão marcantes da cultura cuiabana. Mas ao mesmo tempo, sobrevém uma ponta de preocupação. Estou em Cuiabá há mais de uma década e, entra ano e sai ano, percebo que se jactar da hospitalidade, da alegria e da culinária parece ter se transformado em um mantra mecânico nesta época como se tudo isso servisse para nos extrair de uma realidade que teimamos em não enxergar. A hospitaleira Cuiabá entrou na semana de seu aniversário contabilizando mais sete assassinatos, cometidos por bandidos inclementes e sem nenhuma espécie de piedade. A alegre Cuiabá assiste, às vésperas de seus 292 anos, à enésima crise na saúde pública, com sua festiva população amontoada nos corredores de ambientes que o bom senso não recomenda chamar de hospitais. A saborosa Cuiabá está quase parando, tomada por buracos e neutralizada por um trânsito sem horizontes, fulminado por décadas de incompetência de uma gente a quem o povo, ingenuamente, confiou seu voto. Aqui, de meu canto, fico a me perguntar. Chegará, afinal, o dia em que vamos nos orgulhar das ruas perfeitas, da limpeza nas calçadas, dos hospitais públicos, dos políticos, da segurança impecável, assim como nos vangloriamos de nossa hospitalidade e de nossa alegria? Haverá um aniversário de Cuiabá em que a cabeça de pacu será apenas a cereja do bolo de uma grande celebração de cidadania? ANSELMO CARVALHO PINTO é editor-executivo do Diário de Cuiabá
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