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ARTIGO
Quarta-feira, 06 de Abril de 2011, 21h:47

ANSELMO CARVALHO PINTO

Só alegria não basta

Nesta semana – como em nenhuma outra – muito se dirá a respeito da hospitalidade e alegria do povo cuiabano. Com certa razão, emendo. É tempo de festa, época em que a cidade comemora seus 292 anos. “Um povo hospitaleiro”, vai bradar a apresentadora do telejornal de meio-dia. “Uma cidade que recebe como poucas no Brasil e, quem sabe, no planeta”, reagirá um especialista mais habituado às plagas mundanas e tocado pela Copa que se aproxima. Ah, sim! Alguém também vai se lembrar de festejar a culinária, de salivar pela mojica de pintado, de suspirar pela farofa de banana ou de repisar a velha lenda da cabeça de pacu. Sou um pau-rodado que ama Cuiabá como se sua cidade fosse. E posso dar, aqui, meu testemunho sincero de que receber bem talvez seja um dom desta gente abençoada – algo que percebi no dia em que aqui cheguei, lá se vão 15 anos. Também amo esta culinária saborosa e agregadora, brotada da originalidade do povo ribeirinho. Por isso mesmo, sinto-me reconfortado e representado ao assistir à louvação destes traços tão marcantes da cultura cuiabana. Mas ao mesmo tempo, sobrevém uma ponta de preocupação. Estou em Cuiabá há mais de uma década e, entra ano e sai ano, percebo que se jactar da hospitalidade, da alegria e da culinária parece ter se transformado em um mantra mecânico nesta época – como se tudo isso servisse para nos extrair de uma realidade que teimamos em não enxergar. A hospitaleira Cuiabá entrou na semana de seu aniversário contabilizando mais sete assassinatos, cometidos por bandidos inclementes e sem nenhuma espécie de piedade. A alegre Cuiabá assiste, às vésperas de seus 292 anos, à enésima crise na saúde pública, com sua festiva população amontoada nos corredores de ambientes que o bom senso não recomenda chamar de hospitais. A saborosa Cuiabá está quase parando, tomada por buracos e neutralizada por um trânsito sem horizontes, fulminado por décadas de incompetência de uma gente a quem o povo, ingenuamente, confiou seu voto. Aqui, de meu canto, fico a me perguntar. Chegará, afinal, o dia em que vamos nos orgulhar das ruas perfeitas, da limpeza nas calçadas, dos hospitais públicos, dos políticos, da segurança impecável, assim como nos vangloriamos de nossa hospitalidade e de nossa alegria? Haverá um aniversário de Cuiabá em que a cabeça de pacu será apenas a cereja do bolo de uma grande celebração de cidadania? ANSELMO CARVALHO PINTO é editor-executivo do Diário de Cuiabá [email protected]

Edição EDIÇÃO 16962




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