ARTIGO
Sábado, 06 de Setembro de 2008, 11h:12
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GUSTAVO OLIVEIRA
Silêncio para ouvir João
Por sorte, devoção e algum esforço, devo estar entre os poucos fãs que conseguiram assistir a um dos quarto shows que João Gilberto fez este ano, no país, para celebrar os 50 anos da Bossa Nova que ele ajudou a inventar. Consegui comprar o ingresso para a última apresentação, em Salvador, na última sexta-feira. Onde, depois de 70 minutos de atraso, João Gilberto entrou no palco do Teatro Castro Alves para ser longamente aplaudido em todos os 40 sambas e canções que desfiou durante uma 2 horas e 20 minutos, repetindo boa parte do repertório que apresentara em São Paulo e no Rio de Janeiro, no mês passado. Como todo show de João Gilberto que se preze teve alguns momentos de tensão. Logo na primeira musica "Você Já Foi à Bahia?", de Dorival Caymmi, ele interrompeu nos primeiros acordes e reclamou do microfone. Ao longo da noite reclamou duas vezes de um ventinho que saia do ar condicionado. Mesmo nos momentos de tensão ele manteve o bom humor ao longo de todo o espetáculo. E que espetáculo: o melhor de Tom Jobim (Meditação, Retrato em Branco e Preto, Desafinado, Caminhos Cruzados, Wave, Corcovado, Chega de Saudade a única canção que o público ousou cantar - e Ligia) e de Dorival Caymmi o grande homenageado da noite. O ponto alto da noite foi a interpretação de Acalanto, uma canção de ninar, composta por Caymmi e jamais gravada por João. Em 55 anos de carreira, suas obras completas não passam de 16 discos, cerca de 200 músicas, várias delas em diversas versões: o melhor repertório jamais gravado por um intérprete brasileiro, a mais bela e rigorosa antologia de nossa música popular. Como raros artistas modernos, João Gilberto tem, e pode e deve ter, plena consciência de sua genialidade, da história e da posteridade. E de preservar sua obra. Daí o extremo rigor e parcimônia nos shows e gravações, a exigência extrema no som da voz e do violão: se João Gilberto fosse um ser mitológico, seria metade homem e metade violão, indissolúveis em sua arte, o máximo do mínimo. Ao contrário de um cantor com uma orquestra ou grupo, quando qualquer falha se dilui na sonoridade coletiva, com voz e violão o menor detalhe é do tamanho do todo. Como um rio musical, nunca se ouve João cantando a mesma canção, ela sempre soa nova e cheia de bossa. Porque ele é mais do que um intérprete, o maior deles: é o autor de um novo mundo musical. GUSTAVO OLIVEIRA é diretor de Redação do Diário