ROBERTO B. DA SILVA SÁ
Na semana anterior, outra universidade pública foi manchete na mídia. Como já ocorrera na UnB, agora, o reitor da Federal de São Paulo usou, para caprichos particulares, uma das tetas do momento: o cartão corporativo. Pouco antes, na Federal do Rio, conforme denúncias, um professor de Medicina - com base em barganhas financeiras - manipulava a fila de transplantes. Por aqui, há mais tempo, três colegas foram brutalmente assassinados. Além desses crimes, somados a milhares de outros "menores", a universidade vai mostrando - sem pudor - sua banda inferior. Cada vez mais autoritária e voltada aos interesses do mercado, ela vai se deteriorando numa velocidade espantosa. Logo, refletir sobre essa situação parece-me ser tarefa dos que relutam ao crime e lutam contra o autoritarismo e a ditadura da mediocridade no meio acadêmico. Não sem receio - de minha parte -, este não é o primeiro artigo que trato da questão. Hoje, para as reflexões, ancoro-me no ensaio "Autoritarismo e Universidade" de Flávio R. Kothe (cf.: www.unb.br/fau/flaviokothe), professor da UnB. Relevando algumas passagens e enxugando certas repetições, o longo ensaio de Kothe (51 p.) é um daqueles textos que eu gostaria de ter escrito. O motivo do ensaio foi ponderar sobre a proposta de estudo de uma disciplina da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo/Unb. O resultado impressiona pela análise macro apresentada. Aqui, pelo espaço, aproveito alguns fragmentos. Kothe inicia dizendo: quem domina a universidade - "além daqueles que se 'ajustaram' à situação e se beneficiaram dela com quintos, décimos e outros adicionais" - é "uma geração criada durante a Ditadura Militar (1964-85), que considera normal o que foi norma totalitária e, ao mesmo tempo, afirma ser democrática... Os militares foram apenas um signo exacerbado e burro de uma estrutura profunda que permanece". Na universidade, "recebe mais salário quem foi mais salafrário. Recebe menos quem produz mais em termos acadêmicos". Em suma, vigia-se a liberdade intelectual e eleva-se a mediocridade. Para Kothe, "na pesquisa e na arte, manietar a liberdade e promover a mediocridade são crimes, embora sejam práticas habituais (...) À mediocridade intelectual somou-se a baixaria moral". Durante a ditadura, "os tipos inferiores se tornaram os mais bem pagos... os de mais qualidade acadêmica e moral eram rebaixados". Assim, "a mediocridade coroada encena ser uma instituição séria, de 'ensino superior': fabrica seus deuses locais, distinguidos pesquisadores, grandes professores, santos de pau-oco. São geralmente mais ridículos do que se supõe". Já "os órgãos colegiados pretensamente superiores não reúnem necessariamente os melhores intelectuais da instituição... Em geral, lá estão os que representam o grupo local dominante". O grupo tem reitor eleito pela massa. Parte da massa, durante as eleições, mostra sua truculência, fruto da insuportável ignorância. O reitor eleito, necessariamente, "representa o perfil médio dessa massa. Ele não pode e não vai ultrapassar os limites dessa média..." Por isso, Kothe sintetiza: a democracia na Universidade é, na essência, uma "plutocracia desavergonhada". Assim, "a Universidade acaba sendo administrada por quem não tem a maior competência como professor e pesquisador. A administração acaba tendo um secreto rancor contra funções básicas da instituição. Esta cai em contradição consigo". A meu ver, a análise que Kothe apresenta, somada a outras, principalmente as leituras políticas do Sindicato Nacional dos Docentes, pode contribuir para o processo de reorganização do sangue que corre na universidade. O país precisa de uma instituição séria e serena para o debate intelectual e não para o "embate e débâcle", como vem ocorrendo. * ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ é Dr. em Jornalismo/USP. Prof. de Literatura/UFMT
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