NA HORA
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Cuiabá MT, Quarta-feira, 24 de Junho de 2026

ARTIGO
Sábado, 05 de Maio de 2007, 13h:43

EDUARDO PÓVOAS

Raios de solidão

Dia a dia sua vontade de viver diminuía. Dia a dia suas emoções, suas aspirações e seus sonhos dilaceravam entre seus dedos. Parece que no dia vinte e nove de janeiro de 2003 chegou para ela o aviso de que viver desse dia em diante, de mais nada adiantaria. Fui testemunha da monotonia que virou a vida para ela. Nem mesmo seus filhos e netos impulsionavam-lhe o sentimento de viver. Todos a queriam ver feliz, porém a felicidade e a alegria que dominaram sua fisionomia por longos 77 anos a abandonaram numa manhã de janeiro. Nada mais tinha importância, e seu pedido a Deus que a levasse era parte primordial de suas orações. A ansiedade por estar ao lado de seu companheiro de mais de cinqüenta anos atropelava a vontade de todos nós que queríamos ver seu semblante de outrora. Nunca mais conseguimos ouvir uma gargalhada sua ou ver seu rosto pipocado de alegria nos nossos almoços ou jantares. Foi, e tem sido difícil para mim, o dia seguinte ao 29 de janeiro, mas, para você, o mundo desmoronou. Foi chamado por Deus aquele que lhe pedia o café, aquele para quem você preparava o “gumex” para o cabelo, aquele de quem você fazia sua mala nas inesquecíveis viagens de vocês dois, aquele que, quando precisava, levava seu remédio para que ele o tomasse na cama, e depois lhe preparava o mingau de maizena. Aquele que, retirando-a do conforto de uma cidade como o Rio de Janeiro, a trouxe para Cuiabá nos idos de 1947, sem nunca ter ouvido uma reclamação de aqui estar. Durante todos esses anos, jamais abriu a boca para pedir que a levasse de volta ao convívio de seus pais, pois nem sequer falar com eles se podia, naquela época. Foi a mulher que quando ninguém ouvia falar em “social” já colocava aqueles menos favorecidos embaixo de um teto. Foi a mãe que me oferecia o terceiro travesseiro à noite com o intuito de me ver mais confortável. Foi a mãe que às onze e meia ligava para meu celular perguntando se eu iria para o almoço. É a mãe que muita falta me faz! Sempre lhe dei apoio e carinho nos seus momentos de angústia. Hoje sou eu quem lhe pede compreensão, carinho e apoio para administrar sua ausência. Estou falando de e para você minha mãe, que se viva estivesse estaríamos todos juntos hoje, comemorando seu aniversário, e daqui a alguns dias, o dia consagrado a uma mãe carinhosa, compreensiva, amorosa e esteio de uma família que você construiu. Tenho certeza de que seus dedos que foram instrumento para enormes afagos nos meus cabelos lisos estão hoje apontados para o rosto de quem estaria recebendo esse carinho: sua bisneta Maria Clara! Parabéns filha, irmã, companheira, mãe, avó e bisavó Arlette! Meu coração bate em consonância com o seu. * EDUARDO PÓVOAS é odontólogo [email protected]

Edição EDIÇÃO 16969




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