Uns tempos atrás um professor de direito de nossa cidade, ao me conhecer, falou que achava que eu fosse um velhinho pelas coisas que eu escrevia. Surpreendeu-se com a minha juventude. Recentemente o Hipócrates, amigo de longa data, me disse o mesmo. Segundo ele, as coisas que escrevo parecem ter sido escritas por alguém muito mais velho. Fiquei um misto de envaidecido e preocupado. É que parecer mais velho é uma daquelas coisas que é boa e ruim ao mesmo tempo. Tenho consciência de que não sou um velhinho, mas já faz muito que deixei de ser um menino. Os jovens me acham um velho e os velhos me acham um jovem. Questão de perspectiva. Na verdade me encontro naquela fase da vida na qual a idade começa a ser uma preocupação. Isso se reflete no papo com os amigos em que aparecem palavras e expressões até pouco tempo inimagináveis como: colesterol, triglicerídeos, diabetes, pressão alta, hérnia de disco e o fulano faleceu. Essas palavras nem constavam do meu vocabulário até recentemente. Falecimento só acontecia com os pais dos amigos. Agora está chegando cada vez mais perto. Normalmente ainda encontro os amigos em festa, mas tem gente que atualmente só encontro em velório. Dá até um arrepio em lembrar! Fiquei pensando sobre o assunto, quando uma amiga me disse uma daquelas frases iluminadas: o que importa não são os anos de vida, mas a vida nos anos. Solucionou o meu problema porque pela vida que tive, certamente sou um ancião. Sempre procurei sorver cada momento e aproveitar cada minuto. Procurei fazer tudo intensamente. Li muito, estudei muito, trabalhei muito, me diverti muito, amei muito e infelizmente errei muito. Errei mais do que jamais poderia imaginar que pudesse errar quando era jovem. Vivi errando. Errando desesperadamente e quanto mais errava, mais envelhecia. Envelheci tanto, que hoje considero que a maioria das coisas que os meus pais falavam quando eu era adolescente estavam corretas. Pode uma coisa dessas? Eles eram extremamente velhos e antiquados quando davam conselhos, mas pensando bem, na época tinham a idade que tenho agora. Questão de perspectiva. * MARCELO HARGER é advogado
[email protected]