Volto de novo ao mesmo assunto. Há duas semanas o assessor do secretário de Fazenda do governo estadual, o economista Vivaldo Lopes, contou-me uma estória impressionante. Ele e o secretário da Fazenda, Éder Moraes, estiveram em São Paulo, na sede nacional da Sadia, que tem negócios em Mato Grosso. Em 2009 deve se iniciar o complexo agroindustrial em Lucas do Rio Verde, 360 km ao norte de Cuiabá, às margens da rodovia BR-163, a Cuiabá-Santarém. A estimativa da Sadia é de contratar 6 mil empregados diretos. Na proporção esperada, serão necessários outros 18 mil empregados indiretos no comércio, na indústria, na agricultura e em serviços. A informação que o secretário de Fazenda e o assessor receberam foi a de que o recrutamento de pessoal para o complexo tornou-se assunto estratégico da diretoria da empresa depois que fizeram um pente-fino na região do Médio-Norte e só conseguiram contratar 80 funcionários. O mesmo drama vive a Perdigão, em Nova Mutum, a 280 km de Cuiabá e vizinha de Lucas do Rio Verde. Pessoalmente, ouvi de executivos da Perdigão e da Sadia a seguinte afirmação: produzir frangos é fácil. Difícil é arrumar gente para trabalhar. Em função dessa questão, a Sadia já está recrutando gente de fora e uma das opções foi o Nordeste, a Bahia em especial. Ora, técnicos formados em estados do Sul, do Sudeste e do Nordeste, disputam lá um mercado de trabalho estreito e saturado. A chance de virem para Mato Grosso é uma bênção dos céus. Mas o leitor perguntará: e os técnicos e os jovens daqui? Os que não estão nos bares bebendo cerveja todos os dias, vão à escola e mal e mal passam algumas horas por lá, mais por dever de ofício do que por compreensão de que o seu futuro profissional passa pela educação. Mas que escola? Perguntaria de novo o leitor. Uma escola descompromissada com o mercado de trabalho e completamente irreal. Tanto descompromissada, que ainda não descobriu essa fase inevitável da verticalização industrial da produção de grãos, de carnes, de madeira e afins. Porém, não é o caso de se imaginar apenas os 6 mil empregados que a Sadia pretende contratar. As cadeias de serviços e de produção agregadas requerem gente qualificada. Imagine-se o boom do comércio e dos serviços. Quantas revendas de carros, de máquinas, de motos, de eletrodomésticos, escolas de línguas, hotéis, restaurantes, butiques, etc.etc. não surgirão na cidade e nas vizinhas em função do crescimento econômico? Incontáveis. Todas pedindo gente qualificada para trabalhar. E olhe que não faltam desempregados. Faltam recursos humanos qualificados. Nem que sejam minimamente qualificados. Como eles vêm de uma escola fundamental e média de baixa qualidade, nem sequer conseguem perceber que o futuro profissional requer boa qualificação. É aí que entram os meninos e meninas vindos das outras regiões para ocupar os espaços profissionais aqui em Mato Grosso. A pergunta que cabe, para encerrar, é uma só: até quando? * ONOFRE RIBEIRO é articulista deste jornal e das revistas RDM e Centro-Oeste
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