ARTIGO
Quinta-feira, 03 de Novembro de 2011, 19h:34
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MARTHA BAPTISTA
Quanto mais velhos...
Esta semana entrevistei uma mato-grossense que completou 100 anos: Nympha Escolástica da Silva - uma mulher de personalidade forte que se gaba de sua presença de espírito. Se alguém falar alguma coisa que não gosto, dou resposta no ato. O que gosto, gosto; o que não gosto, não gosto. Por isso sou feliz, afirmou. E isso não parece ser bravata de uma senhora centenária, já que todos asseguram que ela sempre foi assim. Esse encontro me fez pensar sobre a questão da idade. Como tudo é relativo! Há pessoas que se acham velhas aos 18 anos e há outras com uma vitalidade invejável em idades avançadas. O que determina nossa idade? Tenho um amigo, de 76 anos, que diz que essa história de melhor idade é uma balela. Meu amigo não é um pessimista, é apenas realista. Como convencer alguém entrevado numa cama ou tendo que recorrer a um andador de que aquela é sua melhor idade? O mundo é cruel e contraditório. Ao mesmo tempo que tenta nos convencer das delícias da melhor idade, glorifica a juventude e tenta nos enfiar goela abaixo uma série de artifícios para se manter eternamente jovem: pílulas, cirurgias plásticas e técnicas revolucionárias para manter a pele lisa, sem rugas e expressão. Outro dia, um amigo jornalista do Rio de Janeiro, que continua trabalhando aos 70 anos, contou sobre a situação difícil de uma amiga em comum: É mais uma grande profissional que o mercado seletivo dos jovens pôs de lado. Em algumas carreiras, como as de modelo e jogador de futebol, a idade é fundamental, todos sabemos, porém, na profissão de jornalista, em que o vigor físico e a beleza não são fundamentais, deveríamos ser tratados como vinho: quanto mais velhos, melhores. Não é o que acontece. Só não sei se isso também ocorre em outras profissões. Volta e meia, alguém que entrevistei elogia minha capacidade de transmitir exatamente o que ele quis dizer. Sempre pensei que era essa a minha obrigação como repórter, mas constato, com uma certa relutância, que isso é um talento (modéstia à parte), que foi aprimorando com o tempo. Pode ser até que o mercado não valorize os meus atributos (a profissão de jornalista anda tão desvalorizada, num mercado profissional onde publicitários e outros profissionais vão tomando nosso espaço um assunto para outro artigo), mas hoje, diante do exemplo positivo de dona Nympha, eu me sinto invadida por uma onda de otimismo. Acho que preciso pôr mais em prática a sua receita de longevidade, que inclui o uso constante de guaraná em pó. *MARTHA BAPTISTA é repórter