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Cuiabá MT, Sexta-feira, 19 de Junho de 2026

ARTIGO
Sábado, 25 de Julho de 2009, 13h:05

SELVINO HECK

Quando bate a crise

“Devo, não nego, pago quando puder”: essa a regra e a lei reinantes no poderoso Estado da Califórnia, governado pelo governador-ator Arnold Schwarzenegger. As contas do Estado estão sendo ‘pagas’ com IOUs, uma espécie de nota promissória – do inglês ‘I owe you’ – ‘estou lhe devendo’, um reconhecimento de dívida. Segundo Vinicius Torres Freire, articulista da Folha de São Paulo, “o Estado da Califórnia, o ‘Estado Dourado’, está, pois, basicamente quebrado”. Nunca é demais lembrar que a economia californiana é a maior dos Estados Unidos, com PIB – Produto Interno Bruto - de US$ 1,8 trilhão, maior portanto que o do Brasil, de US$ 1,5 trilhão. Mas a renda por cabeça – per capita – é de US$ 50 mil, contra US$ 8.300 do Brasil. Transformada em moeda nacional, em média algo como R$ 92 mil para os californianos e uns R$ 15 mil para os brasileiros. A Califórnia é dos Estados mais atingidos pela crise imobiliária e instituições financeiras. O desemprego é de 11,5%, as receitas caíram 26%, o déficit explodiu. Mas a principal pergunta é quem vai sofrer as conseqüências. Segundo o articulista da Folha, “diferentemente da Europa ocidental e mesmo do Brasil, na maior parte dos EUA não há muita conversa quando a receita de impostos cai: eles cortam salários, empregos e serviços públicos, quase sem dó. O corte proposto por Schwarzenegger é típico do ‘terminator’, o exterminador: vai no pescoço dos pobres”. O principal corte de gastos previsto é no Programa de Saúde da Família (para crianças pobres), no Bolsa Família californiano, no fundo de estudantes universitários e redução salarial dos 235 mil servidores estaduais. A população mais pobre beneficiária destes programas é hispânica ou latina, cerca de 36% dos habitantes do Estado. A crise é profunda. Pobres e trabalhadores estão pagando a conta da farra financeira que beneficiou meia dúzia que movimentava bilhões numa ciranda financeira irresponsável sem base na produção. O capitalismo neoliberal fez do mercado livre e absoluto e do Estado mínimo o motor da sociedade. Deu no que deu. Os resultados e as conseqüências serão sentidos por muito tempo, talvez décadas. Mais que o desastre econômico, uma visão de mundo e valores foram projetados e introjetados, especialmente na infância e na juventude. O individualismo exacerbado, o ‘quem pode mais chora menos’, o ‘quem não for competente não se estabeleça’, a busca de bens materiais e do enriquecimento rápido custe o que custar, a mercadorização de tudo revelam práticas e valores que estão presentes na família, na comunidade, na escola, nas relações diárias, na convivência. Superar a crise exige uma nova visão de mundo, outros valores, outro modelo de economia. É a oportunidade de os pobres e trabalhadores e de todos os que pensam um desenvolvimento ambientalmente sustentável e socialmente justo questionar os modelos hegemônicos. Felizmente o Brasil, pelas políticas do governo Lula, antes e durante a crise, pelos movimentos sociais e populares e pela educação popular, tem condições de sofrer menos suas conseqüências e, principalmente, tem lastro organizativo e cultural de propor e implementar um projeto de desenvolvimento alternativo ao neoliberal e um projeto de sociedade que supere o capitalismo predador e excludente. A bola está no meio do campo, à disposição. Precisa chutá-la na direção certa. * SELVINO HECK, assessor especial do gabinete do presidente da República

Edição EDIÇÃO 16966




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