Durante os meus deslocamentos de automóvel o meu companheiro é o rádio. Dou preferência às informações nesta minha fase da vida. O assunto ontem à tarde foi a Amazônia. O repórter entrevistava no Rio de Janeiro uma Professora Doutora sobre o assunto. Do alto da sua sabedoria afirmava a professora que vivemos o mundo da Ciência e Tecnologia, e a Amazônia só deixaria de ser problema quando essas ferramentas fossem utilizadas. Informou a Doutora Professora que ainda utilizamos métodos do século XIX na Amazônia, como queimadas e ocupação irracional do rico e cobiçado território. O repórter curioso pergunta se nunca havia sido feita pelo menos uma tentativa científica de tratar a região. A resposta foi imediata: Nunca. Gostaria de ter entrado no ar neste momento para informar à professora doutora que no início dos anos 70 um grande esforço fora feito nesse sentido. A recém criada Universidade Federal de Mato Grosso abdicou desse pomposo título nobiliárquico para ser a Universidade da Selva ou Uniselva - como alerta à comunidade acadêmica dos nossos propósitos. Paralelamente, com apoio do Ministro do Planejamento João Paulo dos Reis Veloso, e a adesão dos Ministérios de Educação e Interior, a Uniselva lançava o Projeto Aripuanã. O Projeto tinha por base o conhecimento científico da região Amazônica, para só então ocupá-la com gente preparada e capacitada. A proposta dos caboclos aqui do Coxipó logo contaminou a comunidade científica nacional e internacional. Era a resposta que o mundo esperava do Brasil. Mato Grosso e a Uniselva, através do Projeto Aripuanã, eram exemplos do que a imprensa nacional e internacional divulgava diariamente de como ocupar a Amazônia. Antônio Callado escreveu memorável editorial no velho JORNAL DO BRASIL com o sugestivo título de Cofre Fechado. Dizia que as riquezas da Amazônia estavam dentro de um cofre fechado e afirmava que a chave estava ao nosso alcance através da ciência aqui produzida. Finalizava declarando que não haveria necessidade de importar conhecimentos amazônicos da Europa, dos Estados Unidos ou da Ásia. O conhecimento já estava aqui. E a Uniselva tinha a proposta. Construímos o primeiro campo de pouso para aviões Búfalos da FAB em Aripuanã. Construímos, sobre palafitas, a etapa inicial da cidade científica de Humboldt, ao lado do salto de Dardanelos. Tivemos o apoio do INPA (Instituto Nacional de Pesquisas Amazônicas) e do Instituto Evandro Chagas do Pará. Criamos o polígono de conhecimentos da Amazônia envolvendo todas as Universidades e Órgãos de Pesquisa da Região. Pesquisadores nacionais e estrangeiros aqui aportaram para nos ajudar. Os recursos financeiros nesta etapa do projeto não faltaram. O salto de Dardanelos era motivo de pesquisa dos estudiosos. Fatores externos, como a crise mundial de petróleo e internos, como o pragmatismo feroz das motos serras, fizeram com que a ciência fosse afastada do processo de desenvolvimento sustentável da Amazônia, Passados quase 40 anos voltaram às manchetes nacionais e internacionais, o velho assunto: ocupação racional e científica da Amazônia. Desta vez estamos na contra mão da história. * GABRIEL NOVIS NEVES, sobrevivente do Projeto Aripuanã