MÁRIO M. DE ALMEIDA
O procurador da República, Pedro Taques, ainda não anunciou oficialmente se será ou não candidato a senador. E nem precisa dizer: seus atos e as conversas que vem mantendo com lideranças partidárias falam por si e apontam no sentido de que até o dia 3 de abril (ou mesmo antes dessa data fatal), último prazo para renunciar a um dos cargos mais cobiçados das chamadas carreiras do Estado, ele deverá deixar o Ministério Público Federal para se dedicar à política. Um território movediço e onde o jogo, sobretudo por estas bandas pantaneiras, costuma ser bruto. Cheio de percalços e repleto de armadilhas e ciladas. O que só aumenta o desafio para um homem que, até aqui, construiu sua história do outro lado da lide partidária. Realizando, aliás, nesse mister, um trabalho reconhecido nacionalmente e que o projetou como uma espécie de ícone dos ventos da moralidade que começam a soprar no país. E de cujo movimento de repúdio à corrupção que vem ganhando corpo na nação, Taques é um dos percussores. Mas cumpriu essa missão protegido por todo um aparato legal, onde se inclui a força das armas e o poder de polícia. Estrutura - não custa lembrar - que não vai contar (pelo menos na mesma intensidade) quando sair à cata de votos. O risco, que não é pequeno, é ele virar mais um em um convento que nem de longe é composto apenas por freiras e bons samaritanos... Apesar desses óbices previsíveis, Pedro Taques não vem mostrando estar intimidado pelas dificuldades e riscos. E demonstra, nos bastidores, disposição para enveredar por uma atividade altamente desgastada perante a opinião pública, ao contrário do MPF, visto com bons olhos e admiração por grandes parcelas da sociedade brasileira. Diante disso, difícil não será deixar a segurança e as vantagens da carreira no MPF. O complicado vai ser explicar à sociedade porque faz (se é que vai fazer mesmo) esta opção. Não falta gente já se perguntando o que existe de tão forte para levá-lo a deixar os benefícios profissionais do Ministério Público Federal, com bom salário garantido todo fim de mês, além de outras vantagens materiais inerentes à função, isto sem falar na visibilidade e status. Mas, por certo, ele deve ter lá seus argumentos e vai precisar muito deles, como meio de persuasão e convencimento. Um deles, por sinal, é o de que a atividade política não pode ser vista como deprimente ou menor apenas porque nela vegetam e, pior, fazem sucesso e progridem na vida muitos elementos inescrupulosos. Ou despreparados intelectualmente para a missão. Ou as duas coisas juntas. Outro argumento, na mesma linha de raciocínio, é de que a militância partidária e o desempenho de um cargo público, sobretudo eletivo e emanado da vontade do povo, precisam ser exercidos com espírito de grandeza e competência. Exigindo, pois, desprendimento e vocação para o enfrentamento de dificuldades de ordem pessoal, o que inclui sofrer questionamentos constrangedores como o de que ele, até então, perseguiu determinados políticos de olho na vaga deles. Conforme já prosperam por aí comentários desse nível. E alguns até mais maldosos. A política, infelizmente, não é feita apenas de grandes debates. Ao contrário, nela desponta com mais frequência a covardia do jogo rasteiro, e Pedro Taques deve saber disso. Onde estilingue pode virar vidraça... São os duros ossos do novo ofício. É o que terá pela frente o procurador da República, na hipótese de resolver dar mais essa contribuição à causa coletiva, em uma nova e bem mais vulnerável trincheira. * MÁRIO MARQUES DE ALMEIDA é diretor do site e jornal Página Única.
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