ARTIGO
Sábado, 28 de Março de 2009, 13h:13
A
A
PAULO LEITE
Outro cuiabano no Planalto
Domingo passado, este diário trouxe uma reportagem intitulada Um cuiabano no Planalto, tecendo loas ao secretário-executivo do Ministério das Cidades, Rodrigo Figueiredo personagem que vem ganhando destaque por sua atuação política no governo federal; pelo menos do ponto de vista dos observadores locais. Incensado e paparicado, Figueiredo tornou-se uma espécie de totem matogrossense no poder central. É tido e havido como uma figura promissora e começa a atrair os holofotes para si. Os mais entusiasmados chegaram a cogitar seu nome, inclusive, como virtual postulante à sucessão do Palácio Paiaguás. Tudo é possível neste deserto de possibilidades... Nesta aridez de perspectivas. O simples facho de uma lanterna torna-se o farol dos afogados. A escassez de novidades para o próximo pleito produz miragens eleitorais. Rodrigo, filho do grande parlamentar Milton Figueiredo, pode ser uma aposta, ao mesmo tempo ousada e inteligente, do PP. Mas, por enquanto, é apenas mais um sintoma desta carência de bons candidatos. Os elogios que o secretário-executivo do Ministério das Cidades recebe em profusão não que não os mereça - devem ser creditados, sobretudo, à solidão de posições de destaque de nossos conterrâneos no cenário nacional. Mas, peço vênia ao oráculo das sutilezas eleitorais, para escrever sobre um outro cuiabano no Planalto. Um cuiabano filho de chofer de praça, mulato, morador do Quilombo, que foi estudar em Brasília ainda na década de 1970 e tornou-se uma das principais referências do jornalismo político brasileiro. Ele merece, inclusive, um verbete da Wikipedia, a enciclopédia da internet, descrito como um dos mais influentes repórteres do país. Moreno é mais do que isso... Converteu-se numa espécie de patrimônio imaterial da República. Seu jeito irreverente, sua picardia cabocla e sua generosidade, características puramente cuiabanas, fazem dele um pólo convergente de amigos e personalidades da cena nacional. Em torno de sua mesa, sempre farta, acomodam-se as figuras mais emblemáticas do país. Lambuzaram-se de pacu assado com farofa de banana prato indispensável nos ágapes promovidos por ele - personagens tão ricos e eqüidistantes como Fernando Henrique Cardoso, Caetano Veloso, Cléo Pires e José Dirceu. Aliás, sua casa no Lago Norte tornou-se uma das instituições gastronômicas e políticas mais sólidas da República. Jornalistas, artistas e mandatários convivem democraticamente num espaço onde as posições ideológicas são mera ilusão. Ao redor de Moreno, a piada e a intriga oscilam ao sabor das conveniências. Amigo e confidente de lendas da política brasileira como Tancredo Neves e Ulisses Guimarães, a quem assessorou, Jorge Moreno é um observador privilegiado dos acontecimentos. Nada passa despercebido por ele. Tem sido, ao longo dos anos, interlocutor preferencial de governistas e opositores. Arguto, trafega sutilmente entre as crises e mazelas, informando seus leitores com correção e imparcialidade. Moreno é, portanto, o cuiabano no Planalto. Outros surgirão; mas ninguém ocupará seu lugar na ribalta. Poucas personalidades são tão íntimas do poder, sem contudo se servir dele, quanto Jorge Moreno... Um cuiabano que foi, viu e venceu... * PAULO LEITE é jornalista e escritor