ARTIGO
Sábado, 01 de Agosto de 2015, 15h:18
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GAUDÊNCIO TORQUATO
O teatro da guerra
O general Jesus Baquedano, que participou das guerras contra a Confederação Peru-Bolívia e do Pacífico, nas revoluções da década de 1850, adotava diante do inimigo uma única estratégia, que gritava a plenos pulmões: Atacar. Impetuoso e considerado por seus compatriotas homem de coragem suicida, dizia que seu método, mesmo à custa de milhares de mortos, economizava tempo. O militar chileno era adepto da estratégia direta, amparada na ação frontal, um contra o outro, que tem como principal formulador Carl Von Clausewitz, o general prussiano que escreveu Da Guerra (1832), livro apreciado por Hitler. Ao oferecer continuados conselhos à Dilma, todos na direção de correr o país, mostrar serviço e deixar de responder questões sobre a Operação Lava Jato, o ex-presidente Lula sugere à pupila que pense com a cabeça e arremeta com o coração, evitando a síndrome do touro que faz exatamente o contrário. Ou seja, que escolha a estratégia indireta, a do toureiro, que dá voltas ao redor do animal até fazê-lo cansar. Ele mesmo vai seguir este caminho. Dessa forma, evitará o confronto direto, estilo Baquedano, fará rodeios pelo país, amortecendo o tiroteio que procura abatê-la. Com o tempo, poderia recuperar seu vetor de força, mesmo sob as larvas do vulcão econômico e da borrasca política. O Brasil vive tempos de acirrados conflitos. O aparato que se formou no entorno da Operação Lava Jato é uma complexa engenharia de guerra, nos termos da definição clássica de Clausewitz: a guerra não é só um ato político, como um autêntico instrumento político, uma continuação do comércio político, um modo de levar o mesmo a cabo, mas por outros meios. A teoria de guerra conserva semelhança com a teoria política. Ambas trabalham com eixos comuns, como estratégia e tática; fricção entre atores; interdependência (a eficácia de um jogador depende das jogadas do outro); força como conceito não apenas mecânico, na medida em que abriga valores morais como autoridade, paixão, motivação e coragem, dos quais o exemplo é Gandhi. Dito isto, vejamos como é nossa guerra política. Os principais exércitos na paisagem dos conflitos são: os Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário; o Ministério Público; os grupos de negócios privados; e os intermediários. Para ganhar a guerra, cada qual possui um arsenal composto por acusações/defesas, hipóteses/teses, argumentos/contra-argumentos, delações, versões, percepções. Predomina, porém, o sentimento de que os atores que encarnam a luta do Bem contra o Mal levarão a melhor. O Mal, neste caso, é interpretado pelos indiciados na Operação Lava Jato. O juiz Sérgio Moro, os jovens procuradores do MP e os delegados da PF, sob a guarida das altas Cortes, saem-se bem como mocinhos e xerifes dos velhos faroestes. Na guerra política, como no conflito militar, vale o princípio maquiavélico: os meios justificam os fins. Nesse caso, a propina foi o meio para se alcançar um fim. É o que dizem, agora, os delatores, cuja estratégia é a de confessar o crime para ter reduzida a pena, o que não o torna necessariamente um herege arrependido, eis que continua a usar armamento pesado para atacar ex-aliados e combatentes de exércitos até então coligados. Ocorre uma inversão de papéis. Ao mudar de lado, o delator promove tiroteio entre advogados. Para alguns, importa garantir a liberdade provisória, mesmo sob o aperto de uma tornozeleira eletrônica. Nas praças de guerra de Curitiba e Brasília, a palavra continua a ser a principal arma. É usada para desvendar a guerra iniciada há anos, quando um grupo de combatentes começou a cercar a fortaleza da Petrobras, utilizando armas leves que, ao longo do tempo, ganharam maior calibre. Os recursos doações, propinas enchiam cofres de uma poderosa rede de mando. Conquistas foram alcançadas, suprindo, na vanguarda, campanhas políticas e, na retaguarda, cabos eleitorais e exércitos intermediários. As batalhas, ao se aproximarem dos Senhores da Guerra, chegaram a uma intensidade nunca dantes vista. Na paisagem devastada, alguns chefes de exércitos usam estratégias diferentes. Aécio Neves, tucano, adota a estratégia direta, no melhor estilo de Clausewitz, orientando o ataque frontal à inimiga, para chegar a um final rápido e definitivo, tirando-a do comando do país. Outro comandante tucano, Geraldo Alckmin, prefere a via indireta, a de comer pelas bordas, deixando a adversária se consumir pela escassez dos próximos tempos. Ao sugerir que sua pupila Dilma corra de encontro ao povo e, pouco a pouco, expanda força para enfrentar a batalha de 2018, Lula defende a estratégia de insuflar a retaguarda das margens, alternativa que tem para salvaguardar o projeto político do PT. Não será fácil. A unidade dos exércitos aliados se esfarela. A guerra pode tomar novos rumos em função da fricção que ocorre nas divisões aliadas. Um Senhor da Guerra, Eduardo Cunha, rompe publicamente com a comandante-em-chefe das tropas governistas, prevendo-se mais conflitos na frente dos combatentes encastelados no Congresso. Ao escolher a estratégia do confronto, Cunha passa a liderar a vanguarda oposicionista. Arrisca-se muito. Nas guerras, costuma ganhar o exército mais bem guarnecido e treinado. Só comandantes com visão apurada do potencial dos adversários escolhem o confronto. Mesmo assim, isso não é suficiente para a vitória. Basta ver os exemplos de Napoleão e Hitler, dois cultores do embate direto. O imponderável o inverno das circunstâncias deve ser considerado. A análise de balística no teatro da guerra demonstra que o poderio arrasador ainda está por vir. A cargo de mais exércitos de retaguarda, aqueles que detêm o poder de atirar com a letra da lei. Contra estes, não há salvação. * GAUDÊNCIO TORQUATO, jornalista, professor titular da USP é consultor político e de comunicação. Twitter: @gaudtorquato