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Cuiabá MT, Sexta-feira, 05 de Junho de 2026

ARTIGO
Sexta-feira, 05 de Junho de 2026, 12h:18

EDILSON ALMEIDA

O Meio Ambiente deixou de ser festa

A data passa quase em silêncio, reduzida a postagens institucionais e frases prontas. Por que se perdeu tanto entusiasmo?

Houve um tempo em que o Dia Mundial do Meio Ambiente mobilizava escolas, órgãos públicos, empresas e comunidades.

Não era apenas uma data. Era uma semana de palestras, caminhadas, plantio de mudas e debates. Preservar parecia tarefa de todos.

Virou reminiscência.

A data passa quase em silêncio, reduzida a postagens institucionais e frases prontas. Por que se perdeu tanto entusiasmo?

Parte da resposta está no cansaço das campanhas sem consequência prática.

Falou-se muito em preservar, mas avançou-se pouco em saneamento, fiscalização, recuperação de áreas degradadas e incentivo à produção sustentável.

Quando a palavra não vira política pública, ela se desgasta. Vira ritual sem alma.

O Dia Mundial do Meio Ambiente precisa voltar a ser chamado público: produzir mais sem destruir mais; fiscalizar sem perseguir; punir quem degrada; premiar quem conserva; levar saneamento a quem vive abandonado

Há, porém, um fator mais grave: o meio ambiente foi transformado em vilão da produção.

Como se floresta em pé, água limpa, solo protegido e leis ambientais fossem obstáculos ao desenvolvimento.

Como se produzir exigisse desmatar, poluir, flexibilizar regras e ridicularizar órgãos de controle.

Essa falsa oposição contaminou o debate. Setores produtivos passaram a ver a legislação ambiental como inimiga.

Parte do discurso ambiental se afastou de quem planta, cria, trabalha e gera emprego. No meio disso, a política trocou solução por palanque.

O resultado é o velho ‘oito ou oitenta’: ou se desmata em nome do progresso, ou se imagina que nada pode ser produzido. Esse dilema é falso. E atrasado.

Nenhum país sério pode tratar o meio ambiente como enfeite.

O produtor depende da chuva, do solo fértil e da água. A cidade depende de rios limpos, lixo recolhido, esgoto tratado e ar respirável.

E o pobre é sempre o primeiro a sofrer quando falta água, a enchente invade a casa ou o esgoto corre a céu aberto.

Preservar não é luxo. É infraestrutura de futuro.

O Brasil produz alimento para o mundo, mas ainda convive com insegurança alimentar.

Fala em transição ecológica, mas mantém milhões sem esgoto tratado.

Aprova leis modernas, mas descobre que nenhuma universaliza serviço público sem investimento e planejamento.

A fome não pode justificar a destruição de florestas.

O Brasil não combate a fome com mata derrubada ilegalmente, mas com renda, emprego, assistência técnica, agricultura familiar, redução do desperdício, crédito responsável e inclusão produtiva. 

A floresta destruída quase nunca vira comida; muitas vezes vira especulação e degradação.

Há produtores que preservam nascentes, recuperam matas ciliares e aumentam a produtividade sem abrir novas áreas. Mas ainda são exceção, quando deveriam ser política de Estado.

O Dia Mundial do Meio Ambiente precisa voltar a ser chamado público: produzir mais sem destruir mais; fiscalizar sem perseguir; punir quem degrada; premiar quem conserva; levar saneamento a quem vive abandonado.

Menos espetáculo. Mais compromisso.

Menos discurso. Mais saneamento.

Menos guerra ideológica. Mais equilíbrio.

Preservar para produzir não pode ser espasmo de consciência.

Precisa ser projeto de país.

EDILSON ALMEIDA é jornalista cuiabano, atualmente em Brasilia


Edição EDIÇÃO 16956




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