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ARTIGO
Sexta-feira, 01 de Novembro de 2013, 19h:14

*BLAIRO MAGGI

O livro e a civilização

A cultura de um povo é um signo que atravessa o tempo para se manifestar na sua atualidade. As formas pelas quais a cultura permanece ou é lembrada também são várias. O registro oral, por exemplo, é uma dessas formas, talvez o modo primeiro de guardar os saberes das comunidades e de repetir suas histórias e sua literatura. Com o desenvolvimento material das civilizações, novas técnicas de produção criaram novos suportes para guardar esse conhecimento socialmente articulado. A finalidade de garantir a permanência dos conhecimentos e saberes encontrou no livro o objeto perfeito. A história do livro acompanha de perto a história da nossa civilização. Ele veio assegurar que informações importantes não se perdessem definitivamente, como podia acontecer na transmissão oral da tradição. Mas o livro sempre foi muito mais que apenas o elemento garantidor de registros. Ele é um objeto cultural por excelência. No início repositório privilegiado das relações contábeis, desenvolveu-se em suportes como tábuas de argila cozida, couro curtido de animais e papiro, servindo a todo tipo de manifestação que se julgasse digna de registro, como os textos religiosos e as epopeias. Apesar de ser um objeto relativamente antigo, foi apenas com a invenção da imprensa, no século de Gutenberg, que o livro alcançou maior popularidade. Esse fato, por si só, permitiu que maior número de pessoas aprendesse a ler, ao mesmo tempo em que configurava as línguas nacionais. Hoje, tanto tempo depois de iniciada essa odisseia, sabemos da incontestável importância do livro para a construção da nossa sociedade. É indiscutível que uma nação se faz com homens e livros, e que devemos oferecer a nossos jovens e à população em geral livros à mancheia. O livro ensina. O livro forma, como se diz. A forja de nosso mundo está atravessada pela sua presença física. Com as comemorações do dia 29 de outubro, Dia do Livro, desejo expressar minha preocupação com a formação e o letramento dos nossos jovens. O letramento abrange as áreas de Leitura, de Matemática e de Ciências, a teor do PISA (Programme for International Student Assessment), que é o Programa Internacional de Avaliação de Alunos. O PISA se aplica a estudantes a partir da 7ª série do ensino fundamental, no Brasil, indo até a faixa dos 15 anos de idade, suposto termo final da educação formal básica obrigatória para a maioria dos países envolvidos nessa avaliação. Cumpre dizer que a leitura é um hábito que, se for apreendido pelos jovens, é levado vida afora. Cabe reconhecer que o Brasil tem melhorado, ainda que lentamente; embora no plano da leitura ainda deixe a desejar. Os resultados brasileiros nessa área não são dos melhores, tendo havido queda no indicador. Isso significa que a habilidade de ler, fundamental para uma nação de leitores, é deficiente em nosso País. O Chile tem dois prêmios Nobel em literatura, Pablo Neruda e Gabriela Mistral; nós não. A Argentina tem dois prêmios Nobel em Medicina, dois na Paz e um em Química; nós nenhum. Certamente temos grandes escritores e cientistas, e um prêmio não é a única marca de reconhecimento de atividade intelectual. A par disso, o fenômeno de pouco ler, de alcance nacional, não parece estar sendo resolvido com o passar do tempo, apesar dos investimentos que o Brasil faz na educação. Inúmeros projetos criados por políticas públicas voltadas à leitura foram e são aplicados à realidade escolar, mas isso parece não surtir efeito. Dotar as bibliotecas de livros é um ato necessário, mas pode se tornar ato inócuo, se não houver estímulo à leitura desses livros. O que acontece conosco? Sabemos que é pela leitura que novos conhecimentos e habilidades são adquiridos. Sem eles, a compreensão do mundo e a possibilidade de o alterarmos se comprometem. A leitura é o ponto de contato entre todas as áreas do conhecimento, pela mediação da língua portuguesa. Precisamos, pois, encarar nossa deficiência na qualidade de leitores, chegando a soluções que devem passar por pedagogias avançadas que privilegiem o letramento dos jovens, em uma ponta do processo, até um esforço pela redução de preços de livros no País, na outra ponta. O fato evidente é que o Brasil lê menos do que deveria, a despeito dos avanços educacionais e editoriais. Lemos menos do que a maioria dos nossos vizinhos da América do Sul. A Argentina, em números totais – para comparar –, lê cerca de duas vezes mais que nós, muito embora, no letramento, pelo PISA, esteja em situação similar à do Brasil. Uma das explicações para isso deve ser o preço dos livros, que, na Argentina, costumam custar menos do que aqui. Países como a França, país de leitores, vendem seus livros a preços mais acessíveis que os do Brasil. O Japão vende os livros mais baratos do mundo. Os Estados Unidos da América vendem edições populares a preços extremamente acessíveis. O advento do livro digital – do livro de argila cozida chegamos ao livro de silício! – deve ser encarado com a mesma reserva que temos para com o livro de papel. Se é verdade que o Brasil vem lendo um pouco mais e o mercado editorial vem crescendo, não há garantia de que esteja havendo alguma sensível democratização dos livros e da leitura, como seria desejável. No caso do livro digital, os preços praticados chegam a ser extorsivos. Sem precisar contabilizar em seus custos o suporte material da celulose e o pagamento do frete, esses livros custam, nos catálogos das livrarias famosas, praticamente o mesmo preço do livro físico. A ausência crônica de bibliotecas nas cidades e nas escolas brasileiras deve ser vista como obstáculo ao nosso desenvolvimento. Ler é exercício formativo que prepara para todo tipo de atividade da inteligência. Sem o livro e sem saber utilizá-lo, não é possível olhar com otimismo para o futuro do País. Deve-se pontuar, porém, que, a despeito das deficiências das políticas públicas, a leitura consegue ainda manter-se como prática viva, sobretudo em algumas escolas, pela abnegação de professoras e professores que, muitas vezes, suportando pessoalmente o ônus da compra de livros, instalam “cantinhos de leitura” em suas salas de aula e/ou desenvolvem projetos de leitura criados por eles, geralmente em interação com a comunidade. Os estímulos recebidos nesta interface – escola, professores, estudantes, todos reunidos em função da língua e de sua prática – tornam a leitura hábito prazeroso, cujos dividendos intelectuais não só terão reflexos na vida de cada estudante, quando assumirem plenamente sua cidadania, mas também levarão maior bem-estar para a sociedade. *BLAIRO MAGGI é senador por Mato Grosso e ex-governador

Edição EDIÇÃO 16964




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