No final da década de oitenta, nosso povo estava acostumado a ter o poder político nas mãos e a temer fazer oposição aos donos políticos de Mato Grosso. Todos os poderes pertenciam a cuiabanos, pois havia uma grande justificativa. Cuiabá sempre foi uma sentinela avançada do Brasil junto ao pantanal, o cerrado e a então rica floresta amazônica. Sozinha. No meio da imensidão do nada. Abandonada por séculos pelos governos federais. Éramos considerados sobreviventes e verdadeiros homens das selvas. Pena daquele que ousasse contestar as grandes famílias daqui que eram as donas da cidade, conseqüentemente dos poderes. Que o digam o padre Pombo que ganhou a eleição para o governo de MT, mas não levou, pois uma urna só do bairro central de Várzea Grande (MT) deu mais da metade dos eleitores da capital de ontem, ou sejam, trinta e nove mil votantes ao nosso Julinho, também aquele de ontem. Numa urna só. Hoje, é claro, ele está bem diferente e maduro. E essa estória é piada do Beco do Porrete em VG. Ou o advogado Quintela, que falou demais nessa época e nunca mais pôde montar num cavalo, pois morreu assassinado num mistério onde cada um inventa uma parte, ano após ano. No final do governo de Carlos Bezerra, final da década de oitenta, o irmão de Júlio, hoje senador Jaime Campos era candidato ao governo. No comecinho da campanha, já havia escolhido - corre a lenda todo seu secretariado sem um único cuiabano apontado ou escolhido, pois cuiabano quando no poder, detesta cuiabanos! Por isso e nenhum sociólogo ou cientista político ainda abordou tal assunto -, o povo cuiabano sempre prefere, modernamente, votar maciçamente em outros heróis do Cine Teatro Cuiabá. Já escrevi demais sobre isso. Pois bem, surgiu nos céus de Mato Grosso um nome desconhecido para nós daqui. Era Ludovico Da Riva, um dos mais respeitáveis homens públicos, de inteligência, cultura e humanidade quase lendárias. Era do Nortão, coisa que ninguém daqui nunca ouviu falar, até porque praticamente não existia coisa alguma ainda por lá. Da Riva deu um susto nos donos de MT. As primeiras pesquisas davam conta de que ele seria o próximo governador de Mato Grosso. Preciso descrever o reboliço, o espernear, o corre-corre, as Santas Missas, o desespero, as promessas, as bocas abertas e os queixos caídos? Nome novo, sem vícios de praticar cuspe à distância, das impunidades e dos alienígenas que eram trazidos à tiracolo dos eleitos reis eternos daqui, com famílias inteiras de outras plagas nos caminhões-caçambas despejadas na Praça Alencastro para saborearem o bolo de arroz nosso de cada dia, apressados em trocar nossos bens, nossos valores e culturas, por espelhinhos redondinhos. Exatamente como acontece hoje ainda. Mas, quis o destino que um grande amigo meu, o saudoso Marden Ayres, emprestasse seu velho avião ao Ludovico Da Riva a fim de que ele fosse até Sinop, do pioneiro Ênio Pepino e do Ariosto da Riva, naquela campanha gostosa onde as pesquisas davam margem extraordinária ao futuro governador de MT, nosso Ludovico, um dos grandes amigos que tive, quando, juntos no diretório do PDS, com o extraordinário jurista Clóvis de Mello e a advogada, minha priminha Maria Amélia Pacheco de Albuquerque. E Júlio Campos cedeu o motorista de seu carro particular para pilotar o velho e bom avião bimotor do Marden, pois tinha carteira de piloto. O avião caiu, incendiou-se e Ludovico morreu dias depois no hospital. Foi uma das maiores comoções sociais e políticas em nosso Estado. Ficamos sem o governador Ludovico Da Riva. Jaime Campos elegeu-se governador. * PAULO ZAVIASKY é jornalista
[email protected]