ARTIGO
Terça-feira, 01 de Dezembro de 2009, 23h:53
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GABRIEL NOVIS NEVES
O envelhecer (parte I)
As coisas nunca são tão boas quanto esperamos, nem tão ruins quanto tememos. O que seria da humanidade sem o humor das histórias do português, mineirim e idosos? Os velhinhos e velhinhas ocupam na minha classificação o 1º lugar. O idoso é um privilegiado, além de trabalhar longo tempo para a sociedade, quando está para mudar de idade - que é a morte - ainda propicia entretenimento especialmente aos mais jovens. E a medicina nos tem ajudado muito na arte de envelhecer com humor. É muito bom e saudável contar piadas de velhos. São as minhas preferidas, e para não melindrar ninguém e me livrar de um processo por assédio ou atentado ao pudor, utilizo sempre como personagens a minha família e eu. Lembro-me da história do meu avô, que ao completar 100 anos, e nunca ter ido ao médico, ganhou como presente uma consulta. Veio de carroça do Livramento, seguido por aquele bando de descendentes: todo de terno branco, chapéu de palha, gravata borboleta, sapato preto, um cigarrinho forte e sempre aceso, com a escarradeira portátil, pois era dia de festa, e sua quinta mulher, educadíssima, não o deixou jogar o produto amarelado e abundante dos seus pulmões pela estrada. O ramo da família que morava em Cuiabá, desde cedo o esperava na porta do consultório médico, na Rua dos Porcos. Quando meu avô chegou para consulta, foi aquela festa danada. Gente falando alto, tropeçando pelas calçadas e corredor do consultório. Vovô é atendido pelo médico da família. Após minucioso exame clínico, o médico dá o seu parecer definitivo: o senhor está ótimo de saúde. Peso, pressão arterial, pulso, aparelho locomotor, tudo bem. De maldade, indaga ao meu avô: e aquela outra parte como está? Com dificuldade na sua audição, vovô solicitou ao médico que falasse mais alto. Com o aumento dos decibéis do doutor, o meu avô entendeu a pergunta e assustadíssimo responde: Doutor, esse negócio acaba?! Nada acaba com o envelhecer, apenas modificamos o modo de conduzir a nossa vida. Dependemos de fatores externos como a genética e o meio ambiente para uma longa vida, mas isto é tarefa de Deus. Em segundo lugar, a vida longa e saudável é composta de pequenas vidas, que unidas produzem a longa vida. Temos sempre que recomeçar para não deixar faltar o combustível indispensável a uma vida saudável que é exatamente o começar. O envelhecer não é nunca o terminar. É começar um novo tempo. Quintana foi quem melhor nos deu a dimensão do envelhecer. O poeta gaúcho afirmava que só temos duas idades - ou estamos vivos, ou estamos mortos. O envelhecer não é a melhor idade. Melhor idade é sempre aquela que vivemos com saúde física e mental. Garanto que envelhecer é pelo menos a idade mais engraçada na vida das pessoas. É onde o aprendizado é diário. No meu caso, aprendi muito nesses últimos 5 anos: - Aprendi a dormir só em uma imensa cama de casal. - Aprendi, a saber, o preço das compras do mercado, da luz e da taxa do condomínio. - Aprendi a viver me desviando dos preconceitos. - Aprendi a prestar atenção na folhinha, para que os meus hábitos de consumo, mensalidade da academia de ginástica e o pagamento dos empregados não ficassem inadimplentes. Enfim, aprendi também que na minha idade posso falar e fazer de tudo sem punição, exceto cometer infrações contra a ética e a dignidade das pessoas. * GABRIEL NOVIS NEVES é médico e ex-reitor da UFMT