NA HORA
O jornal de Mato Grosso Facebook Facebook twitter youtube

Cuiabá MT, Quarta-feira, 17 de Junho de 2026

ARTIGO
Sábado, 21 de Março de 2009, 14h:15

ONOFRE RIBEIRO

O Brasil que morreu com Clodovil

A morte do deputado federal Clodovil Hernandez, aos 71 anos, na semana que passou, encerra um tempo na história do Brasil. Era estilista de origem, à época do seu surgimento chamado de costureiro. Foi da mesma geração de outro extraordinário mito da mesma época: Denner Pamplona de Abreu, um paraense absolutamente exótico que deu início à chamada alta-costura brasileira. Ambos, ele e Clodovil, tinham a mesma marca do deboche. Era uma forma de rir da nascente elite da sociedade brasileira urbana. Até os anos 50 o Brasil era muito rural. Começou ali a urbanização e a elitização daquela sociedade rural. Muita hipocrisia, muito despreparo social e um gosto muito discutível para aquela aristocracia cabocla. Nesse ambiente surge Denner. Debochado, cínico e disposto a quebrar a casca daquela elite. Ao abrir seu primeiro ateliê em São Paulo, quebrou um tabu, criando para socialites quando era moda a mulher de bem vestir-se em Paris. No Brasil os modistas copiavam as criações francesas. Esse foi o marco inicial da roupa brasileira com estilo próprio. Denner foi o grande precursor da alta-costura brasileira: fugia da comodidade do copismo, desenhando para clientes de acordo com seu físico, idade, gosto e em consonância com o nosso clima tropical. Clodovil tinha a mesma orientação de Denner. O primeiro usou a mídia para o seu marketing pessoal e criou uma expressão que marcou a época: “Denner, o luxo”. Clodovil preferiu a mídia como canal. Foi comentarista de moda na Rede Globo, em outras televisões e apresentou programas com ironia e um refinamento rebuscado cercado de fina crítica. Era o seu modo de rir da elite conservadora da sociedade brasileira. Era, principalmente, o Brasil recém-saído da segunda guerra mundial, onde as elites rurais ganhavam muito dinheiro com a produção de alimentos para exportação e as indústrias nasciam no ambiente progressista. Mas era um Brasil rural, onde o bom gosto era muito discutível. Denner morreu com 41 anos, em 1978. Clodovil viveu 30 anos mais. Denner não chegou a ver o Brasil das madames modernizadas. Clodovil viu e riu de todas elas. Afinal, o seu deboche foi reconhecido pelo inconsciente coletivo ao ser eleito por São Paulo, como terceiro deputado federal mais votado do país em 2006, com 494 mil votos. Escandalizou Brasília com suas frases ferinas herdadas de um tempo sem ar condicionado em que debochava das madames maquiadas com cremes franceses derretendo no calor tropical. Morre um Brasil que deixou de ser rural, que ainda consolida heranças e herdeiros. O dinheiro mudou de mãos algumas vezes depois de Denner e no tempo de Clodovil. Já existe uma moda brasileira, mais adequada ao Brasil de hoje. Os dois estilistas morreram e levaram consigo um Brasil que só se encontra nos livros de História. Muita coisa mudou. Muita coisa há por mudar. Outros iguais a eles virão em outras áreas da atividade para rir e debochar do besteirol que sempre existirá. ONOFRE RIBEIRO é articulista deste jornal e da Revista RDM [email protected]

Edição EDIÇÃO 16964




ENQUETE
Você acredita que a Ferrovia Vicente Vuolo vai chegar a Cuiabá?
Sim. Seria uma questão de tempo. E de interesse.
Não. A Rumo já sinalizou que não é uma prioridade
Tanto faz. Em MT, os políticos não ligam para a obra
PARCIAL