ARTIGO
Quarta-feira, 26 de Abril de 2000, 22h:58
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* FERNANDO NOGUEIRA DE LIMA
Novo mundo/outros tempos
Nesta terra, em se plantando, tudo dá. Esta a citação mais celebrada, a toda a hora citada quando ao Brasil queremos nos reportar. É bem verdade que essa versão se apresenta um tanto quanto modernizada. Na Carta de Pero Vaz de Caminha a El Rei Dom Manuel sobre o achamento do Brasil, a passagem se enroupa de outros dizeres. Águas são muitas e infindas. De tal maneira é graciosa que, querendo aproveitá-la, dar-se-á nela tudo, por bem das águas que tem. Na frota cabralina, mil e quinhentos homens tripulavam treze navios. Uma verdadeira operação de guerra. Objetivo era alcançar as Índias, fincando lá a presença lusitana. Outro, no entanto, foi o paradeiro. Razões diversas levaram os aventureiros a atingir Porto Seguro, precisamente no dia 22 de abril. Não só o interesse mercantil os movia. Dos tripulantes se apossava um espírito aguerrido. No ar, o gosto da aventura, a busca do desconhecido. Embora assim, poucos chegaram ao destino, dizimados que foram pela fome, pelas doenças e, mais que tudo, pelos naufrágios. Temos para nós que esse espírito de aventura em muito contribuiu para imprimir, nos diários de bordo, o caráter de ufanismo que aí jorra à farta. As cartas dos navegantes e dos evangelizadores se referem à formosura de praias imensas, à grandeza e variedade de florestas e animais, à fertilidade do solo. Aliado à natureza, sobressai o interesse pela conquista dos bens materiais. Voltemos à carta: Mas um deles viu o colar do capitão e começou a acenar com a mão para terra e depois para o colar, como a dizer-nos que havia ouro em terra; e também viu um castiçal de prata e da mesma forma acenava para terra e para o castiçal como que havia, também, prata. O excesso de tributos e a distância que separava a Metrópole em relação ao Novo Mundo possibilitaram que se instaurasse um processo de burla ao fisco. No geral, as vantagens eram creditadas sobretudo à burguesia mercantil do reino. Em razão disso, sinais de corrupção, nós os vemos estampados ao longo da nossa História. Basta-nos, a comprová-los, que leiamos o Sermão do Bom Ladrão proferido pelo grande padre Antônio Vieira, em 1655. De forma corajosa, o pregador acusa o mal que se praticava na Amazônia, após viver por três anos nesta região. Já naquela época, gritava contra o roubo institucionalizado, contra a impunidade, contra a inoperância do poder da Metrópole. Em rápidas palavras, sustentava que a colônia é obra de ladrões. Conjugam por todos os modos o verbo rapio (roubar), por furtam por todos os modos de arte. O momento exige que demos um passo à frente. Atualmente, há um como que desencanto nos tomando de assalto, provocado por histórias relativas à corrupção, uma mais estapafúrdia que a outra. De repente, esses casos passaram a brotar de todos os lados. Formam uma verdadeira bola de neve que se avoluma assustadoramente, ladeira da impunidade abaixo. Andam por aí às dúzias os exemplos, ou melhor, os contra exemplos. Pior ainda. Contrista a todos nós saber que quem deveria estar protegendo a sociedade, parece ter passado para o lado do mal. Entre os suspeitos de corrupção, figuram, não poucas vezes, os próprios encarregados de combatê-la. Aliam-se a isso ares de impunidade e, como não dizê-lo, uma grande morosidade no transcurso dos processos judiciais. Tão grande é a avalanche que, de certa forma, ficamos anestesiados. Nessa trincheira, sabedores de que a luta impõe que sejamos gigantes, espera-se que se aposse de cada um de nós esta certeza: com a queda da corrupção, é muito o que se tem a ganhar. Este o novo mundo. Agora, quinhentos anos após, os tempos são outros. Ou deveriam ser outros?!? Mais que tudo, os tempos atuais nos impõem no mínimo uma reflexão, necessariamente crítica. Outra deve ser nossa posição diante dos problemas que presentemente nos atingem. Notadamente nestes dias, embalados pelos festejos comemorativos. As riquezas, conquanto naturais, independem de nós. Se delas nos vangloriamos, não o façamos desmedidamente. A literatura, não o podemos negar, também se associa, em momentos vários, a esse clima: Minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá. As aves que aqui gorjeiam, não gorjeiam como lá. Disso tudo se infere o endeusamento das novas terras. No dizer de Sérgio Buarque de Holanda, usamos a expressão Novo Mundo para designar as terras descobertas. Novo não só porque ignorado, até então, das gentes da Europa (...), mas porque parecia o mundo renovar-se ali e regenerar-se, vestido de verde imutável, banhado numa perene primavera... Esse clima de ufanismo, ninguém o desconhece, vem perdurando ao longo desses quinhentos anos, ora mais, ora menos velado. É como se aqui reinasse uma eterna primavera, diferentemente do que nos outros países ocorre, o outono do mundo. Nessa visão, o Brasil se confunde com o próprio paraíso. Muito apropositadamente, a professora Marilena Chauí enfatiza: Essa produção mítica do país-paraíso nos persuade de que nossa identidade e grandeza se encontram predeterminadas no plano natural... Essa enxurrada de ufanismo tem tudo a ver com o achamento do Brasil, ou, melhor ainda, são manifestações concretas do paraíso terrestre de novo encontrado, revitalizado. Não sem sentido, as cores de nossa bandeira reproduzem elementos da natureza: floresta, ouro, céu, estrelas. Na mesma esteira, o Hino Nacional está repleto de imagens que se direcionam para o mesmo fim. Canta mares mais verdes, pinta bosques com mais flores. Nossa vida povoada de mais amores. Enquanto isso, o gigante continua deitado eternamente em berço esplêndido. Custe o que custar, importante é que, ancoradas na intrepidez de um Vieira, as novas gerações desenhem um novo País, instaurem outros tempos. Desnecessário dizer que, para tanto, o papel da educação não tem similar. A luz deve, fundamentalmente, partir dos centros de cultura. Ações concretas, nós temos desenvolvido muitas no exercício de nosso reitorado, à testa da Universidade Federal de Mato Grosso. Entre elas, tão-só para citar, a decisão de ampliar vagas em todos os cursos, para acolher a um número maior de alunos. Espera-se que estes, no realizarem em nível de excelência seus cursos superiores, quaisquer sejam eles, estejam preparados a conferir honradez e idoneidade ao seu agir, pleno de competência. Não bastasse, gestões seguidas fizemos, no decorrer desses quase quatro anos, com vistas a sanear tudo quanto ao acadêmico e ao administrativo se refira. A Universidade Federal de Mato Grosso, que neste 2000 completa seu trigésimo ano de existência, esta pronta, mais do que nunca, para dar as respostas que a comunidade mato-grossense de nós espera. Não de hoje, os reitores que por aqui passaram, capitanearam esta instituição na tentativa de imprimir, com suas ações, os sinais dos tempos que o Brasil de hoje está a exigir. De nossa parte, temos certeza disso, o mesmo fizemos nós. Sobra-nos uma convicção: o ufanismo que tomou conta do Brasil, desde o início de sua colonização, contribuiu para equívocos prejudiciais, atrasando nosso desenvolvimento. Aqui, como em qualquer outro lugar, sempre será necessário muito trabalho, esforço e planejamento. Assim, mas só assim, dar-se-á nela tudo, por bem das águas que tem. * FERNANDO NOGUEIRA DE LIMA é reitor da UFMT