ARTIGO
Segunda-feira, 17 de Outubro de 2011, 19h:33
A
A
ADEMAR ADAMS
Névio Lotufo: foi-se embora o pé-de-valsa
Eu estava andando pela minha vivenda quando a Adriana me chamou para ver uma notícia na televisão. Era a morte de Névio Lotufo. A notícia fez entristecer aquela tardinha de uma sexta-feira tão bonita... Ao saber que não mais vamos nos cruzar num salão com o seu Névio bailando, sinto um vazio na minha alma dançarina. Não cheguei a ser seu amigo, mas por muitos e muitos anos nos encontramos nos salões. Acenos, risos, breves conversas. Entendíamo-nos ao balanço dos rasqueados, das vaneras, dos chamamés e dos chotes. Éramos como dois gitanos, acampando aqui e ali onde um solo de gaita nos chamasse para a dança. Acho que foi no antigo Babilônia no Coxipó ou na Galopeira que vi pela primeira vez aquele homem alto e magro que dançava com uma leveza incrível. Parecia que caminhava pela sala. Sempre cordial, sempre rindo. Um dia alguém me disse o nome dele. Depois soube que era o dono daquela tradicional bicicletaria da Treze de Junho. Mas fiquei seu admirador ao saber que estacionara definitivamente aquele velho calhambeque na rua, segundo me disseram, num valente ato de desobediência civil. Era uma rebeldia pelo fato de ter de pagar para estacionar um carro na frente de seu comércio, na rua que ele pagou para ser asfaltada e em frente à casa em que nasceu e viveu. Nunca soube de suas coleções, do seu gosto pelo cinema e de tantas outras qualidades dele que só agora todos estão falando. Mas nem sei por que nunca fui atrás do seu Névio para uma entrevista e assim me aproximar desse personagem fantástico. São coisas que a gente vai deixando pra depois e acaba perdendo. Também, vendo-o dançar, tão cheio de vida, nem imaginava a sua luta contra uma tenaz moléstia. E seguimos nos cruzando pelos salões, no CTG Velha Querência, no Clube da Mangueira e em festas de amigos comuns. Digamos que tínhamos uma itinerante vizinhança bailante. Agora, ele se foi. Deve ter partido como um beija-flor por entre as nuvens. Mas sei que em breve vai ter festa lá em cima e o seu Névio vai balançar nos ritmos do outro plano. Vai estar com tantos cuiabanos amigos, amantes da boa música e da cultura, como ele. Vá me aguardando aí, pé-de-valsa! Quando chegar a minha vez deveremos nos cruzar em algum lugar, ao valseio de alguma melodia. Quero rever teu sorriso, tua alegria e, quem sabe?, me contagiar com ela. *ADEMAR ADAMS é jornalista em Cuiabá