Estou num hotel em Rondônia, domingo à noite, sem ter muito o que fazer, depois de exaustiva jornada em Manaus e Porto Velho da Rede Talher de Educação Cidadã, que coordeno no Gabinete do Presidente Lula. Ligo a televisão. Descubro um programa, Jogo Duro, que eu não conhecia, um tanto semelhante ao Big Brother Brasil ou à A Fazenda. Não olho estes programas, mas uso-os como referência em análises de conjuntura e reflexões sobre a sociedade, sua organização e valores. No programa, meia dúzia de competidores, homens e mulheres são colocados em ambientes degradados, cheios de sujeira, de animais, de água empossada (informaram-me que o programa já ocorreu em cemitérios), onde procuram cédulas de dinheiro, notas de reais, que acumulam em suas blusas e camisas. Ao final, cada um põe o que juntou num capacete de pedreiro. Quem recolhe menos cédulas é eliminado, até sobrar um participante, o grande vencedor, que pode ganhar até 30 mil reais. Desligo o som da TV, olho as imagens: os participantes quebram vasos, vasculham tapetes, rastejam no chão atrás de notas de cinco, dez, vinte, cinqüenta reais, desesperadas, olhos abertos, um querendo chegar na frente do outro, em meio a ratos, baratas, escorpiões, poeira, roupa, rostos, cabelos cobertos de poeira, tinta e água suja. Quase não acredito no que estou vendo. Parece que não estamos em profunda crise econômica internacional, causada pela farra de milhões e bilhões de dólares que circulam livres e soltos diariamente pelo mundo, de uma Bolsa de Valores a outra, numa ciranda financeira irresponsável, que caiu como castelo de cartas, quebrando bancos, imobiliárias, montadoras e empresas de todos os calibres. Crise econômica que, aliás, é também social, porque está levando ao desemprego milhões de trabalhadores e fez (re)aumentar a fome no mundo para um bilhão de pessoas; é ambiental, porque construída em cima de um modelo produtivista e desenvolvimentista onde só contam o lucro e o acúmulo de capital e riqueza; é também crise de paradigmas e valores, porque calcada num consumismo irreal e individualista, onde quem pode mais chora menos e onde tudo, afeto, corpo, sexo, sentimentos, transforma-se em mercadoria. O programa estimula a competição feroz e alienada. Não há solidariedade; a lei e a regra são vencer o outro e juntar notas de reais na mão como prêmio e vitória. Não importam a água suja nas canelas, o barro entrando no nariz e enlameando os cabelos. Os olhos brilham quando mais um maço de cédulas é encontrado. Por ironia, o valor arrecadado é depositado em capacete de pedreiro, como se um trabalhador tivesse ganho o salário depois de um mês suado de trabalho e fosse para casa feliz encontrar a família. O neoliberalismo da competição feroz, do Estado mínimo, do mercado livre e absoluto e das políticas públicas compensatórias concentrou renda nas últimas décadas como nunca na história, levou a um desemprego jamais visto, à falta de perspectiva dos jovens que só vêem saída na criminalidade, na violência e nas drogas. As bruscas mudanças climáticas e o aquecimento global são fruto deste modelo inviável e predador. Os valores praticados e vividos não levam à solidariedade e à justiça social. Em tempos de crise, cabe a reflexão sobre suas causas e razões. Qualquer crise exige que se saia dela melhor, apurados eventuais erros e desvios, refeitas quebras de alianças, reajustados ou mudados modelos de desenvolvimento e projetos de sociedade. É o que o momento espera e o mundo precisa, sob pena de sobrevirem crises ainda mais devastadoras. A humanidade, a natureza e o futuro de crianças e jovens agradecem. * SELVINO HECK, assessor especial do Gabinete do Presidente da República
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