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Cuiabá MT, Quarta-feira, 17 de Junho de 2026

ARTIGO
Segunda-feira, 22 de Novembro de 2010, 20h:20

AIRTON REIS

Muros de um Palácio

Muito menos do que a Cidade Proibida na China. Muito mais do que o Palácio do Congresso na Argentina da Casa Rosada. Château de Chantilly sem framboesa francesa importada. Palazzo Realle di Torino com calabresa italiana defumada. Nada semelhante ao Palácio Real na Noruega ou na Inglaterra. Totalmente diferenciado do Palácio Imperial no Japão. Mais ocioso do que o Palácio de Inverno e de Verão na Rússia de Catarina e de Vladimir. Mais dispendioso do que o Grande Palácio de Bangkok na Tailândia. Sul americano de república em república proclamada. Palácio Salvo no Uruguai. Palácio de Miraflores na Venezuela. Palácio de La Moneda no Chile. Palacio Quemado na Bolívia. Palácio do Governo do Peru. Algo além do que uma coroa herdada. Palácio do Príncipe de Mônaco. Palácio do Parlamento na Romênia. Palácio Presidencial de Varsóvia na Polônia. Palácio Nacional do México. Palácio de Potala no Tibete. Palácio de lona. Palácio de sapé. Palácio de papelão. Palácio da princesa adormecida em literatura nada infantil. Palácio dos infantes filhos das ruas de um mesmo Brasil. Palácio do pão amanhecido em migalhas de cidadania. Palácio dos pedintes de democracia. Palácio das marionetes da perna de pau. Palácio dos sambas enredos de carnaval em carnaval. Palácio das palhaçadas aplaudidas pelo voto popular. Palácio das alvoradas regadas a mordomias faturadas no bolso dos contribuintes. Palácio das promessas de igualdade. Palácio dos projetos de urbanidade. Palácio das lixeiras abarrotadas de calçada em calçada. Palácio da rodovia não pavimentada. Palácio da hidrovia sem navegação. Palácio da ferrovia sem vagão. Palácio da educação que não acontece de fato e de direito. Palácio da vítima da violência sem sujeito. Palácio das penitenciárias nas regalias para quem pode comprar além do trivial. Palácio das contas públicas reprovadas em mais de um Tribunal. Palácio dos gastos contestados pela Receita Federal. Palácio das palmeiras sem sabiás. Palácio das laranjeiras ao sul do Equador. Palácio dos grandes latifundiários disfarçados de pequeno agricultor. Palácio dos miseráveis figurantes numa mesma tragédia sócio-ambiental. Palácio dos bandeirantes de uma nova era dita digital. Palácio das chaminés em combustão acelerada. Palácio da liberdade nunca tardia. Palácio dos beneficiados pela mesma mordomia cada vez mais requintada. Palácio das águas condenadas pela poluição. Palácio das florestas destinadas à desertificação. Palácio de um César nada romano. Palácio de um povo nada soberano. Palácio de um cavalo quase troiano. Palácio de um dragão republicano. Palácio das mil e uma noites além de Bagdá. Palácio da tartaruga chamada tracajá. Palácio do elefante de proveta. Palácio do hipopótamo habilidoso com a picareta. Até quando esses muros continuarão sendo erguidos? * AIRTON REIS é poeta em Cuiabá [email protected]

Edição EDIÇÃO 16964




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