Antes do trauma do 7 x 1 da copa passada, o Brasil sofreu na Copa de 1950. No último dia 16, parou o coração de Alcides Edgardo Ghiggia, o carrasco que fez o Brasil chorar em 1950. A coincidência é que ele morreu no dia que em que se revivia o 65º aniversário do Maracanazo, o dia que o Uruguai calou o estádio carioca e levou para Montevidéu a Taça Jules Rimet na Copa de 1950, o autor do gol que marcou a história do futebol morreu na capital do Uruguai. Com ele, foi-se a última testemunha em campo daquela partida: Ghiggia era o único sobrevivente. É estranho o sentimento brasileiro com relação ao seu mais íntimo carrasco, o homem que destruiu a badalada seleção. Não se destila rancor pelo fato de Ghiggia ter emudecido 200 mil fanáticos na final daquele Mundial, o primeiro disputado no país do futebol. As ondas dos radiões de válvulas transmitiram ao Brasil uma das frustrações mais pesarosas já sofridas em nossos gramados, e o algoz dessa dor surda que se entranhou em décadas na nossa história é justo esse senhor Ghiggia, que jamais se vangloriou disso. Ao contrário, dizia que aquela derrota ensinou o Brasil a vencer e foi o que aconteceu. Pois agora, Ghiggia morreu, aos 88 anos, e o brasileiro se sente compelido a reverenciar o avô uruguaio que nos deu uma lição. No ano 2000, por ocasião dos 50 anos da conquista no Maracanã, Ghiggia esteve no Rio com companheiros daquela jornada de 16 de julho de 1950. Como sempre, esquivava-se de comentar o gol fatídico. Mas a imprensa brasileira o obrigou a relembrar detalhes. O país já contava vitória. Dizia-se que a final da Copa entre Brasil e Uruguai era só um protocolo de 90 minutos. Que a seleção dos craques Zizinho, Jair Rosa Pinto e Ademir Queixada, que vinha varando goleadas na Copa, jamais perderia. Afinal, era o Mundial do Brasil. O Maracanã fora construído para aquela glória. Políticos invadiram o ônibus da delegação a caminho do estádio, tomaram o vestiário e comemoraram antes do jogo. O Uruguai seria apenas coadjuvante. Quando o jogo se iniciou, o Brasil parecia ensaiar mais uma goleada. Mas nada acontecia. No início do segundo tempo, Friaça marcou 1 a 0. Não havia para ninguém, a taça do mundo seria nossa. Aí Ghiggia cruzou, e Schiaffino empatou. Que atrevidos esses uruguaios. A 11 minutos do final, Ghiggia enveredou sobre a área, deixou Bigode e Juvenal para trás e chutou no vão de centímetros que havia entre o poste e o goleiro Barbosa. A 11 minutos do final! A história se encarregou de trucidar Barbosa, Bigode, Juvenal, embora o próprio Ghiggia os absolva: Eles fizeram tudo certo, eu é que fiz o improvável. Além do mais, a cegueira do favoritismo não nos deixou ver que os uruguaios haviam sido campeões olímpicos dois anos antes, que o supertime do Peñarol era a base da seleção, incluindo Ghiggia - que depois jogaria no Roma e no Milan. A última homenagem ao ídolo foi feita pelos uruguaios na repescagem para a Copa de 2014. O Estádio Centenário reviveu o gol de Ghiggia e, pela primeira vez, ele escutou a torcida comemorar seu gol. Porque, até aquele dia, tudo o que ouvia depois de a bola chegar à rede era o silêncio ensurdecedor. Agora, finalmente, juntou-se aos outros dois homens que calaram o Maracanã com um gesto: Frank Sinatra e o papa João Paulo II, como ele mesmo lembrava. *Gustavo Oliveira é diretor de Redação do Diário.
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