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ARTIGO
Terça-feira, 17 de Agosto de 2010, 19h:24

ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ

Lousa estraçalhada

Pelo menos um dos telejornais de rede nacional, do dia 13, abriu sua edição mostrando mais cena de violência numa unidade escolar brasileira. Em Sorocaba-SP, um adolescente de quinze anos esmurrou, lançou pontapés e arremessou uma lixeira contra uma de suas colegas. Antes, o jovem agressor combinara com outro “estudante” para que tudo fosse filmado pelo celular. Motivo: exibir o vídeo na internet; aliás, isso parecer estar se tornando moda para nossa esvaziada juventude. A que ponto chegamos! Pois bem. Para além desse absurdo modismo entre jovens, o fato é que a violência na escola – reflexo imediato de uma sociedade sem ética, sem respeito e em silenciosa “guerra civil” – está incorporada aos nossos (des)valores sociais há algum tempo. Império da pancadaria. Ninguém mais está blindado, muito menos os professores. O controle foi perdido. Ciente, pois, da gravidade desse infeliz quadro, sempre que posso trato dessa questão com meus alunos na universidade. Conscientizar esses futuros profissionais da educação é o mínimo que devo fazer. Ignorar a realidade é pior. Já cheguei a dizer a eles que devem se precaver, dominando mecanismos de autodefesa. Em muitos casos, não mais se leciona; enfrenta-se aluno. A ambiência ao aprendizado foi minada. É o cúmulo! Há pouco tempo não pensava que pudesse chegar o dia em que eu tivesse de dizer esse tipo de coisa a um futuro professor. Quando, em minha imaginação, me coloco no lugar de colegas que já atuam, principalmente no ensino médio, tenho calafrios. Literalmente, são guerreiros da educação. Temo por suas vidas. Assim, sempre que trato com acadêmicos de Letras o tema “violência contemporânea no Brasil”, sinto um mal-estar físico e emocional incomensurável. Entristeço-me. Sofro com minhas próprias reflexões. Machadianamente falando, “encasmurro-me”. Sem ato de vidência, mas de mera evidência, vou antevendo o futuro ainda mais esgarçado, caso urgentemente nada seja feito para alterar a situação em curso. Talvez para evitar essa sensação de perda geral, pouquíssimos são os colegas que também enfrentam essas questões que extrapolam o “conteúdo da matéria” de cada um. Acontece que a universidade não tem o direito de ignorar essa situação de barbárie. Em defesa da integridade física dos professores, esse problema deve ser pautado constantemente. É um dos maiores desafios desse trágico momento vivido por todos. Mas nem só de violência física vivem as pessoas que estão envolvidas na educação, com destaque aos professores. A violência simbólica – mais difícil de ser percebida ou vista como tal – é imensa. Ela causa acúmulo de doenças psicológicas, desencadeadas, dentre outras, pelo desestímulo da profissão e pelo fato de os profissionais comprometidos não mais se reconhecerem no espaço de trabalho. Quando isso ocorre, trabalhar passa a ser um martírio. Muitos já vivem assim. Na última Assembléia Geral de docentes sindicalizados de que participei, pelo menos duas colegas fizeram entristecedores depoimentos. Na essência, ambas, com muita saudade de um tempo que se foi, diziam de seus sofrimentos hodiernos, justamente pelo fato de não mais se perceberem numa universidade, na real acepção do termo. Hoje, tudo conspira contra os que insistem na seriedade acadêmica. Em muitos casos, só a tolice, que em geral está atrelada à canalhice, tem espaço. Aqui pode estar um dos fios da meada da violência. A universidade vem perdendo o rumo e sua função. Uma dessas professoras depoentes está em fase de resposta a dois processos administrativos movidos por “acadêmicas” que não conseguiram ser aprovadas na disciplina. Uma delas sequer fez todas as atividades propostas no plano de curso. Mesmo assim, aquelas universitárias receberam guarida institucional, por meio de colegas descompromissados que ajudam a compor colegiados inconsequentes. Colegas assim – também violentos e cafajestes – vão ajudando a detonar o caráter de acadêmicos desse tipo. Perdem a chance de tentar reverter o difícil quadro. Preferem ensinar e/ou incentivar a pior das lições, mas a única que dominam: a cafajestagem. Numa metáfora, ajudam a estraçalhar a lousa já demasiadamente quebrada. *ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ - Dr. em Jornalismo/USP. Prof. de Literatura da UFMT [email protected]

Edição EDIÇÃO 16960




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