Me diverte essa polêmica rivalidade entre MT e MS; ou entre Cuiabá e Campo Grande, que reacendeu no episódio da telenovela global. Gosto de assistir televisão e sei que não é a primeira vez que se referem às coisas do MS dizendo apenas Mato Grosso. Mas parece que agora querem que se torne a última. E está rendendo... Confesso que é com orgulho que percebo, hoje, o meu estado em relação ao vizinho. E isto me redime um pouco. Na época da divisão eu tinha por volta de 11-12 anos, e como conhecia Campo Grande de passar férias lá em casa de uma tia, me lembro bem de ter sentido um baque na autoestima quando dividiram o estado. Quase tudo em Campo Grande naquela época era mais moderno que Cuiabá. As ruas eram grandes e largas, tinha escada rolante, lojas Americanas, a novela passava alguns capítulos na frente antes de chegar em Cuiabá, tinha trem, drive in...Eu ficava meio besta. Só o frio me incomodava bastante. E a informação (mito?) de que de passagem por Campo Grande, carros com placa de Cuiabá deveriam ficar nas garagens dos hotéis, pois poderiam ser riscados (...!!!???). A meu ver, a reincidência dos brasileiros/meios de comunicação, em particular os do sul do país, em dizer simplesmente Mato Grosso às coisas dos dois estados, tem menos que ver com ignorância embora ela possa existir em alguns casos, mas duvido que a maioria erraria numa prova de Geografia e muito com a representação das pessoas sobre este pedaço de Brasil imenso. É gostoso estudar a história de Mato Grosso por isso. Há uma sensação de embarque numa viagem de aventuras a uma região longínqua, sertão bravio, última fronteira do oeste, Eldorado, lugar de grandes perigos e desafios. Mexe com o imaginário. Romântico? Também acho! Mas vejo assim a maneira como somos vistos. Até hoje! Essa coisa toda de representação, que nada mais é do que a idéia que fazemos de algo, talvez seja mais forte do que o ato oficial que dividiu os dois estados; do que os desenhos que surgiram no mapa; do que as formalidades burocráticas que se estabeleceram. Talvez baste, a quem não é da região, dizer simplesmente Mato Grosso, para comunicar um todo imaginado e distante. Pimenta no dos outros é refresco poderiam dizer nossos irmãos sulmatogrossenses (ou matogrossenses do sul como também admite o Aurélio). Penso que subjaz no argumento dos prejuízos econômicos causados pelo marketing desfavorável a eles, questões enraizadas historicamente e que buscam a construção de uma identidade própria como matogrossenses do sul. As palavras do ex-governador Fragelli na época da divisão e lembradas em outro artigo sobre o assunto, poderiam perfeitamente encerrar esse papo de identidade: "Não abro mão do privilégio de continuar sendo mato-grossense". E ponto. É complicado, entretanto, driblar a paixão nessa discussão. Já vivi situações em que ao ouvir referência a Mato Grosso como do Norte prontamente me pus a esclarecer sobre a inexistência do complemento. E a dificuldade, neste caso, é reveladora de sentimentos bacanas; de pertencimento ao lugar, de identificação com a cultura, de orgulho do território, de deleite mesmo, algo que, sem ufanismos regionais, nenhuma massificação centralizada e focada no litoral consegue extirpar. Daqui, de onde consigo enxergar, vejo gente daqui para lá e gente de lá para cá o tempo todo, morando, trabalhando, passeando...vivendo. Se a questão é mudar o nome, isso é com eles. Se Estado do Pantanal isso é com eles e conosco por diversas e justificáveis razões, entre elas a inversão do problema do marketing turístico com reflexos na economia. De tudo, espero principalmente não ver ressurgir sentimentos de animosidade e retaliações que a disputa pela Copa, discussão de nomes, e agora com essa novela da novela podem, lenta mas progressivamente, vir à tona. De mais a mais tem a letra de uma música, que tenho certeza, faz sucesso lá como cá: ...como cachaça e limão, tamo junto e misturado. *MARCUS GALÉRIUS AQUINO é cuiabano, diretor da Escola Técnica Estadual de Diamantino
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