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ARTIGO
Quarta-feira, 09 de Fevereiro de 2011, 20h:55

MARCUS GALÉRIUS AQUINO

Junto e misturado

Me diverte essa “polêmica” rivalidade entre MT e MS; ou entre Cuiabá e Campo Grande, que reacendeu no episódio da telenovela global. Gosto de assistir televisão e sei que não é a primeira vez que se referem às coisas do MS dizendo apenas Mato Grosso. Mas parece que agora querem que se torne a última. E está rendendo... Confesso que é com orgulho que percebo, hoje, o meu estado em relação ao vizinho. E isto me redime um pouco. Na época da divisão eu tinha por volta de 11-12 anos, e como conhecia Campo Grande de passar férias lá em casa de uma tia, me lembro bem de ter sentido um baque na autoestima quando dividiram o estado. Quase tudo em Campo Grande naquela época era mais moderno que Cuiabá. As ruas eram grandes e largas, tinha escada rolante, lojas Americanas, a novela passava alguns capítulos na frente antes de chegar em Cuiabá, tinha trem, drive in...Eu ficava meio besta. Só o frio me incomodava bastante. E a informação (mito?) de que de passagem por Campo Grande, carros com placa de Cuiabá deveriam ficar nas garagens dos hotéis, pois poderiam ser riscados (...!!!???). A meu ver, a reincidência dos brasileiros/meios de comunicação, em particular os do sul do país, em dizer simplesmente Mato Grosso às coisas dos dois estados, tem menos que ver com ignorância – embora ela possa existir em alguns casos, mas duvido que a maioria erraria numa prova de Geografia – e muito com a representação das pessoas sobre este pedaço de Brasil imenso. É gostoso estudar a história de Mato Grosso por isso. Há uma sensação de embarque numa viagem de aventuras a uma região longínqua, sertão bravio, última fronteira do oeste, Eldorado, lugar de grandes perigos e desafios. Mexe com o imaginário. Romântico? Também acho! Mas vejo assim a maneira como somos vistos. Até hoje! Essa coisa toda de representação, que nada mais é do que a idéia que fazemos de algo, talvez seja mais forte do que o ato oficial que dividiu os dois estados; do que os desenhos que surgiram no mapa; do que as formalidades burocráticas que se estabeleceram. Talvez baste, a quem não é da região, dizer simplesmente Mato Grosso, para comunicar um todo imaginado e distante. Pimenta no dos outros é refresco poderiam dizer nossos irmãos sulmatogrossenses (ou matogrossenses do sul como também admite o Aurélio). Penso que subjaz no argumento dos prejuízos econômicos causados pelo marketing desfavorável a eles, questões enraizadas historicamente e que buscam a construção de uma identidade própria como matogrossenses “do sul”. As palavras do ex-governador Fragelli na época da divisão e lembradas em outro artigo sobre o assunto, poderiam perfeitamente encerrar esse papo de identidade: "Não abro mão do privilégio de continuar sendo mato-grossense". E ponto. É complicado, entretanto, driblar a paixão nessa discussão. Já vivi situações em que ao ouvir referência a Mato Grosso como “do Norte” prontamente me pus a esclarecer sobre a inexistência do complemento. E a dificuldade, neste caso, é reveladora de sentimentos bacanas; de pertencimento ao lugar, de identificação com a cultura, de orgulho do território, de deleite mesmo, algo que, sem ufanismos regionais, nenhuma massificação centralizada e focada no litoral consegue extirpar. Daqui, de onde consigo enxergar, vejo gente daqui para lá e gente de lá para cá o tempo todo, morando, trabalhando, passeando...vivendo. Se a questão é mudar o nome, isso é com eles. Se Estado do Pantanal isso é com eles e conosco por diversas e justificáveis razões, entre elas a inversão do problema do marketing turístico com reflexos na economia. De tudo, espero principalmente não ver ressurgir sentimentos de animosidade e retaliações que a disputa pela Copa, discussão de nomes, e agora com essa novela da novela podem, lenta mas progressivamente, vir à tona. De mais a mais tem a letra de uma música, que tenho certeza, faz sucesso lá como cá: “...como cachaça e limão, “tamo” junto e misturado”. *MARCUS GALÉRIUS AQUINO é cuiabano, diretor da Escola Técnica Estadual de Diamantino [email protected] www.ergueomocho.blogspot.com

Edição EDIÇÃO 16959




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