ARTIGO
Quinta-feira, 02 de Julho de 2015, 19h:45
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BENEDITO PEDRO DORILEO
José Fragelli
Não foi difícil conseguir audiência em palácio, pois a autoridade procurada já exercera o cargo de promotor de justiça, e o assunto era pertinente. Tinha ensejo de acompanhar o colega, Luiz Vidal da Fonseca, perante o governador do Estado, José Fragelli. Nobre e suave, sabia palmilhar o terreno da simplicidade. Eram diligências complementares da obra de organização da Associação Mato-Grossense do Ministério Público. Analisou e deu assentimento de contribuição para a novel instituição. Tínhamos pela frente um homem do Direito, justo e honesto. O pai, Nicolau Fragelli, estudante de medicina em Porto Alegre, participou de movimentos políticos libertários, inspirando-se na República de Bento Gonçalves. Transfere-se e cola grau na Universidade do Rio de Janeiro, em 1911. Foi médico, jornalista e político na terra natal de Corumbá, tendo ocupado a cadeira nº 33 da Academia Mato-Grossense de Letras. O filho, José Manuel Fontanillas Fragelli, casado com d. Maria de Lourdes Ribeiro Fragelli, advogado, professor e historiador, bacharelou-se, em 1938, na Faculdade de Direito de São Paulo, Largo de São Francisco. Esta e a de Olinda foram as primeiras escolas de nível superior do País, em 1827. Na capital do Estado, Fragelli foi deputado constituinte, em 1947, em companhia de Gervásio Leite, Luís-Philippe Pereira Leite, Lenine Póvoas, dentre outros. Militou na aguerrida União Democrática Nacional, que enfrentou a ditadura de Vargas, principalmente, quando no mandato de deputado federal, ao lado de Carlos Lacerda, José Sarney e outros, membros da famosa banda de música. Nos anos de 1971 a 75, eleito, governou Mato Grosso, conciliando interesses sempre controversos entre norte e sul do Estado. Sucedeu a Pedro Pedrossian, detentor do último mandato de cinco anos. Foi Fragelli dirigente simpático ao povo cuiabano, habitantes da capital sertaneja; solícito, mandou erigir o estádio de futebol, que tomou o seu nome, o Verdão, ao depois dinamitado. O novo, padrão Fifa, deveria ter sido construído nos bairros populosos da Morada da Serra e Morada do Ouro. Se, entretanto, renasceu dos escombros, tornando-se Arena, é substituto natural podendo readotar o nome de Pantanal Governador Fragelli , ajustando-se à tradição do pantaneiro de Corumbá. Ocorre, em 1977, a divisão territorial do Estado. Fragelli, residente na aprazível Aquidauana, elege-se em 1980, senador por Mato Grosso do Sul, vindo presidir ao Senado Federal nos anos de 1985 a 1987. Nessa condição, exerceu interinamente a presidência da República, em setembro de 1986. Comentava com seriedade em altas rodas a passagem em que usou o verbo procrastinar, causando espécie ao embaixador italiano, desconhecedor do vocábulo. Tratava-se do episódio em que Tancredo Neves, eleito pelo Congresso Nacional, assistiu à missa solene, caiu doente e não tomou posse na presidência. Não foi presidente da República, infelizmente. Diante do convulsionado momento republicano, transição do regime de exceção para a normalidade democrática, Fragelli optou pela decisão política, ao arrepio da Constituição Federal, e deu posse ao vice-presidente eleito, José Sarney. Se Tancredo não fora presidente, não houve vacância. No entanto, dizia Fragelli: tive que decidir urgentemente sem procrastinar, diante da combalida República. Quando governador de Mato Grosso indiviso, atuou decididamente na colonização do Noroeste, desenvolvendo em parceria com a União, projetos como PROTERRA, PRODOESTE. Construiu o linhão de energia elétrica trazido da Serra Dourada em Goiás, como primeira solução de abastecimento para a Grande Cuiabá. Foi o idealizador e realizador do Centro Político Administrativo. Estudioso, como se via em sua biblioteca, participava de obras literárias, tornando-se membro da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras, fundada em 30 de outubro de 1971, como uma das iniciativas preparatórias para acolhimento da nova unidade federativa. Nasceu em Corumbá, em 31 de dezembro de 1915 e rendeu o seu espírito em 30 de abril de 2010. Portanto, está em curso o seu centenário de nascimento, digno de celebração. Humanista, repetia admiração pela natureza pantaneira: não basta viver, é preciso que haja beleza; uma gota de orvalho não me faz viver ou morrer, contudo a sua magia me enche de gratidão pela vida. *BENEDITO PEDRO DORILEO é advogado e foi reitor da UFMT