Por onde se olha no Brasil, as coisas estão de cabeça pra baixo. A sociedade perdeu gradualmente a capacidade crítica de perceber, de lutar e de procurar por transformações. As classes mais pobres estão cooptadas na comodidade das políticas sociais do governo. A classe média encolheu-se em si mesma, apesar de ser o motor das transformações sociais e políticas em uma nação. As classes ricas seguem a sua trajetória calculada em cima das duas outras. O único fator de politização hoje existente, com alcance social, é a imprensa. Mas as suas omissões e as prática do denuncismo servem mais par despolitizar do que para apoiar a sociedade. Gostaria de trazer três exemplos recentes e relevantes à tona, aqui em Mato Grosso: 1 a proibição da pesca depois da piracema, por decisão do juiz federal de Cáceres, com enorme prejuízo econômico a uma cidade por si só muito empobrecida e que tenta se salvar com o turismo. O juiz, como os demais juízes, sabidamente amantes de gabinetes fechados, temem a realidade, porque a vida real ameaça o saber jurídico, decidiu, sozinho e unilateralmente, proibir a reabertura da pesca depois da piracema. Os jornais de Cuiabá denunciaram a notícia e o assunto morreu. O rio Cuiabá tem outros problemas enormes na mesma linha e o assunto não foi pesquisado e nem continuado; 2 as duas usinas de álcool de Jaciara fecharam as portas e desempregaram milhares de pessoas em Jaciara, Juscimeira, São Pedro da Cipa e em outras comunidades. As empresas estão quebrando, a violência chegou à próspera região, e os municípios estão um caos. A imprensa de Cuiabá denunciou o fechamento, mas nunca mandou um repórter lá para levantar a realidade; 3 - a Câmara de Vereadores de Cuiabá está um caos. Mas só apareceu a denúncia contra o jovem vereador Ralph Leite por bobagens pessoais e pelo seu despreparo do lidar com a vida política. Mesmo assim, o noticiário foi desencontrado e a imprensa não o aprofundou. Ao mesmo tempo, a Câmara vive o caos do desmando, da corrupção e da mais deslavada pouca vergonha. Nada relevante nas páginas dos jornais, nos noticiários da televisões, no rádio e nem nos sites. Em todas as três situações, mas elas são muito mais freqüentes do que esses três casos. Tem faltado às redações a capacidade de dar continuidade aos assuntos relevantes para a sociedade. Os governos estadual e municipais trabalham com informações lentas e unilaterais que raramente refletem a urgência da realidade. Caberia à imprensa esse papel de politizar até o serviço público, e dar à sociedade voz diante dos problemas. O raciocínio acaba por parecer óbvio: as redações estão despolitizadas. Compreendem a política tão somente como o noticiário vindo do mundo político, quando política, por definição, é o trato com os interesses sociais. A sociedade cairia de costas se soubesse os prejuízos causados pelo excelentíssimo juiz de Cáceres, o caos em que se encontra a região de Jaciara e o tamanho e a gravidade das bandalheiras na Câmara de Vereadores de Cuiabá. Isso é política! * ONOFRE RIBEIRO é articulista deste jornal e da Revista RDM
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