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ARTIGO
Terça-feira, 13 de Maio de 2008, 20h:44

ROBERTO B. DA SILVA SÁ

Histórias de maio

Durante o calendário anual, maio é um dos meses que mais possibilitam reflexões. Há quarenta anos, o Maio de 1968 tornou-se um dos marcos da história contemporânea. Mobilizações sociais, partindo de Paris (França) e Praga (Tchecoslováquia), mostraram a importância do espírito revolucionário contra o status quo. Estudantes franceses e tchecos ajudaram no contágio mundial daquelas idéias e ideais. No Brasil, em plena vigência da ditadura militar, naquele memorável momento, viu-se ocorrer a passeata dos cem mil. Os trabalhadores - destemidos - foram à luta por seus direitos na relação capital/trabalho. No geral, o Maio/68 provocou mudanças profundas, principalmente, na Europa. Num balanço, ainda que importantes direitos civis tenham sido conquistados por lá, aspectos culturais sobrepuseram-se aos sociais e econômicos, ressalvando, a dificuldade da separação de tais aspectos. De qualquer forma, costumes seculares foram postos abaixo. A luta feminista talvez tenha sido uma das mais emblemáticas. Justiça seja feita, quatro grandes pensadores deram suporte teórico àquelas práticas: Marx, Engels, Lênin e Trotski. Em suma, o Maio/68 modificou a forma de ser e estar no mundo ocidental, o que não significa dizer que tudo estava resolvido; ao contrário, afinal, as estruturas econômicas mantiveram-se quase intactas em todos os países. Por isso, na lógica do movimento - já revelada por pensadores da antiguidade - no início da década de 1970, o capital tratou de se reorganizar. Para isso, suas cartilhas continuaram as mesmas, cuidando, apenas, de atualizações exigidas pela própria dinâmica da história. Assim, o velho Adam Smith - considerado pedra fundamental do liberalismo clássico - foi relido por Hayek, através do livro O caminho da servidão, de 1944; esse livro pode ser considerado texto referência do Neoliberalismo. Na prática, o Chile - em 1973 - parece ter sido o primeiro dos países a impor lições neoliberais. Em seguida, a receita globalizou-se de verdade. Na Europa, Alemanha e Inglaterra saíram na frente. No Brasil, foi a vitória de Collor, em 89, o lastimável marco nacional desses ideais adversos à lógica do público em benefício do privado. No entanto, com o passar do tempo, estamos vendo que - por aqui - tais imposições parecem ser mais perversas do que em muitos outros lugares. Uma das provas é a manutenção de uma herança colonial: a escravidão - ou a servidão -, para usar a terminologia de Hayek, resgatada das práticas do feudalismo, em que a propriedade privada sustentou-se na cruel relação da vassalagem. Em termos de oficialidade histórica - via de regra, artificial - "comemoramos", nesse mês, 120 anos da abolição dos escravos, cuja lei foi assinada em 1888, mais precisamente, no dia 13. Contudo, notícias cada vez mais freqüentes dão conta da permanência do trabalho escravo em várias regiões do país, dentre elas, Mato Grosso; um constrangimento. A profundeza dessa ilegalidade - absolutamente desumana - pode ser mensurada pelos números. Só em 2007, o Grupo Móvel de Fiscalização resgatou 5.877 trabalhadores escravos, ou seja, seres humanos que viviam em condições degradantes, além de privados do direito de ir e vir; é claro que mulheres e crianças não são poupados. A prática do trabalho escravo atinge vários ramos da economia, com destaque aos canaviais e carvoarias. Como vemos, o mês de maio não pode passar sem que rememoremos práticas da história, fazendo balanço de possíveis superações e/ou permanências. Lamentavelmente, muitos descendentes das "Vozes d'África", do poeta Castro Alves, hoje, indiferentemente da cor da pele, continuam indagando: "Deus! ó Deus! onde estás, que não respondes?" Como respostas dos altos céus não virão jamais, o mesmo poeta continua atual, pois aponta, por meio do poema "Adeus meu canto", o lócus social reservado - na terra - aos escravos. Dada sua atualidade, transcrevo a nona estrofe daquele poema, com a qual encerro minhas reflexões: "Há muita virgem que ao prostíbulo impuro// A mão do algoz arrasta pela trança;// Muita cabeça d'ancião curvada,// Muito riso afogado de criança". * ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ é Dr. em Jornalismo/USP - Prof. de Literatura/UFMT [email protected]

Edição EDIÇÃO 16959




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