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ARTIGO
Quinta-feira, 08 de Maio de 2008, 21h:12

ONOFRE RIBEIRO

Futuro de pouco futuro...

Conversei ontem com dois dirigentes de setores produtivos da agricultura em Mato Grosso e, por isso, escrevo este artigo com grande preocupação. Segundo eles, a crise mundial de alimentos e de energia só tende a crescer na medida em que países como a China e Índia entram pesado no consumo de alimentos e de energia. E, ao mesmo tempo, os Estados Unidos destinam 25% de sua tradicional produção de milho alimentar para a produção de etanol. Está bem claro que a civilização do petróleo está chegando ao fim com o crescente aumento dos preços e a transformação dessa commodity em instrumento de economia política. Não é de se esperar que os produtores norte-americanos deixem de produzir o etanol de milho, até porque investiram muito nisso e eles trabalham dentro de uma lógica econômica implacável. Não há como retroceder. Bom. O que tem isso a ver conosco aqui em Mato Grosso? Tem, e muito! Os produtores, o grande capital, os fundos de pensão e de investimento europeus resolveram investir em produção de alimentos e de energia. Estão fazendo uma perigosa triangulação via Argentina para comprarem terras em Mato Grosso. Já adquiriram grandes áreas na região de Primavera do Leste. Eles estão usando empresas argentinas para produzirem comida e etanol em nosso estado, aproveitando a experiência argentina nesse tipo de gestão corporativa, que consideram mais confiável do que o nosso sistema de empreendedores individuais. Eles chegam, compram grandes áreas, pagam à vista e usam uma metodologia de gestão própria. A tendência é cada vez mais estrangeiros comprarem terras no Centro-Oeste e desalojarem produtores tradicionais que estão descapitalizados, endividados e sofrem com os custos loucos da logística mato-grossense. O título do artigo vai nessa direção. O nosso futuro dependerá da solução de problemas como o endividamento dos produtores, a solução da logística e outras questões secundárias. Um exemplo da logística perversa: as Usinas Itamaraty, em Nova Olímpia, a 120 km de Cuiabá, gastam R$ 1,35 para levar um litro de álcool até Caxias, no Rio de Janeiro, para a distribuição. O mesmo álcool produzido em São Paulo chega por R$ 0,55. Diante desse cenário, é de se questionar como Mato Grosso pode vencer essa equação maldita de custos, de dívidas e da burocracia estadual e federal, além da extrema concorrência que está diante dos nossos olhos. Num primeiro momento, pode se pensar em solução política. Mas a densidade política de Mato Grosso é pequena. Quem sabe, se as representações classistas que estão se organizando, como Aprosoja e Ampa, possam se transformar em mecanismos de pressão e de articulação mais eficientes. Do contrário, o que poderia ser a chance num momento mundial favorabilíssimo, pode ser a canção fúnebre de uma história de desenvolvimento e construção feita ao longo dos últimos 30 anos na produção de alimentos. * ONOFRE RIBEIRO é articulista deste jornal e das revistas RDM e Centro-Oeste [email protected]

Edição EDIÇÃO 16959




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